Era uma vez...
- A Palavra d’Aquele que É chega até Jonas. E lhe diz: "Levanta-te, desperta, vai a Nínive, a grande cidade, prega nela que eu tenho consciência de sua maldade.
Eu, o Ser que É, sinto a loucura desta cidade e a sua doença. Vai a Nínive ". Jonas levanta-se, mas para fugir. Fugir da presença d'Aquele que É.
E, ao invés de ir para Nínive, ele se dirige a Társis. Ele desce a Jope, onde encontra um barco partindo para Társis. Ele paga o seu bilhete e desce ao interior do barco para ir com os outros passageiros a Túrsis, fugindo da presença d'Aquele que É. Seus ouvidos se fecham a esta palavra que o convida a ir a Ninive.
Então, o Ser Aquele que É lançou um grande vento sobre o mar. E houve uma tempestade tão grande que todos pensaram que o barco ia naufragar. Os marinheiros tiveram medo e rezaram, cada um a seu deus. Eles jogaram ao mar toda a carga que traziam no navio para que este ficasse mais leve.
Entretanto, Jonas tinha descido ao porão do navio e ali se deitou, dorrnindo um profundo sono. O capitão foi procurá-lo e lhe disse: "Como podes dormir tão profundamente?
Como podes dormir no meio deste desespero que nos faz sucumbir?
Levanta-te, desperta, invoca teu Deus.
Talvez este teu Deus possa nos ouvir, talvez que, com este teu Deus,
não pereÇamos ".
O tempo passou. E então se disseram uns aos outros: "Nós
não vemos uma solução. Joguemos os dados para
sabermos por que este mal nos acontece ". Eles lançaram
os dados e caiu a sorte sobre Jonas. E eles disseram: "Diz-nos
agora, de quem é a culpa deste mal que se abate sobre nós?
Qual é a causa desta infelicidade que nos acontece? Quem é
o culpado? E tu, quem és tu? Qual é a tua profissão?
De onde vens? Qual é o teu país? Qual é o teu
povo?"
Jonas respondeu: "Eu sou um hebreu (a palavra "hebreu"
quer dizer alguém que está de passagem. Eu temo Aquele
que É, o Deus do céu que fez o mar e a terra. Aquele
que fez o ser, as coisas e que contém todas as coisas ".
Os marinheiros tiveram medo e lhe perguntaram: "O que tu fizeste? Por que tu fugiste?" Porque estes homens compreenderam, pelo que dizia Jonas, que ele era um homem que fugia à presença do Ser que É e lhe disseram: "O que devemos fazer contigo para que o mar cesse de se levantar contra nós?" Porque o mar estava mais e mais agitado. Jonas lhes disse: "Peguem-me e lancem-me ao mar". Ele reconheceu que ele era a causa do que lhes acontecia. Que sua perturbação interior projetava perturbação ao exterior. "Eu .sei que a causa desta grande tempestade é a minha culpa".
Os homens puseram-se a remar, energicamente, em direção à costa, e não conseguiam chegar porque o mar se agitava cada vez mais contra eles. Então clamaram Àquele que É, dizendo: "Por favor, Senhor, não nos faças perecer por causa deste homem. Não nos acuses pelo sangue inocente, porque tu és Aquele que É e tu fazes o que bem te apetece ". Então eles pegaram Jonas e o lançaram ao mar. E o mar acalrnou a sua fúria. Estes homens sentiram um grande temor, realizaram atos sagrados e se inclinaram na presença d'Aquele que É.
Neste momento, Aquele que É preparou um grande peixe para engolir Jonas. E Jonas esteve nas entranhas do peixe durante três dias e três noites. Nas entranhas do peixe, Jonas rezou a seu Deus, rezou Àquele de quem fugiu e de onde não mais podia fugir: E disse: "Eu te chamo, ó Tu que És, em minha tribulação. Do ventre do inferno eu grito por ajuda. Eu sei que Tu escutas a minha voz, Tu o silencioso, o além de tudo. Tu me precipitastes no mais profundo do mar, ao sabor das ondas a corrente das águas me cercou, as vagas passaram por cima de mim. Então eu pensei que fui rejeitado para longe dos teus olhos e, contudo, eu continuo a olhar para o teu templo santo. As águas me asfixiaram até a morte, o abismo me arrodeou, as vagas envolveram minha cabeça. À base das montanhas eu desci. Eu estou no inferno.
Mas eu sei que Tu podes reverter minha vida, perdoar meus erros, Tu que és a fonte do meu ser. Minha salvação é a minha lemrança de Ti. Minha salvação está na lembrança do Ser. Os que se entregam às vaidades esquecem a graça do teu Ser. Do fundo do inferno, eu quero agora cumprir o que Tu me mandaste fazer".
E, neste momento em que Jonas aceitou o desejo que habitava nele, quando ele escutou a voz que estava nele, o peixe o vomitou sobre a terra firme.
Assim, aconteceu que a palavra d'Aquele que É chegou de novo até Jonas. A mesma palavra de antes e de depois das provações. Esta palavra lhe dizia: "Levanta-te, Jonas, desperta. Vai! Anda! Vai a Nínive, a grande cidade e faze-lhes escutar a pregação que Eu te digo ". Desta vez, Jonas levantou-se e foi a Nínive, seguindo as ordens d'Aquele que É.
Ora, Nínive era uma cidade de dimensões enormes, sendo necessário três dias para atravessá-la. E desde o primeiro dia em que entrou na cidade, Jonas começou a pregar: "Se vós continuais a viver assim, se vós continuais a viver na violência e no erro, em quarenta dias Nírzive será destruída. Vós pagareis pelas conseqüências de vossos atos. Isto não vai durar, não pode durar!... '
O povo de Nínive, escutando estas palavras, creu no que Jonas anunciava, e ordenaram um jejum, vestiram-se de sacos, desde o maior até o menor E neste dia eles ficaram todos iguais, não havia ricos nem pobres. Todos se vestiram de sacos de aniagem.
Quando esta nova chegou aos ouvidos do Rei de Nínive, ele levantou-se do seu trono, despojou-se de suas roupas reais. E todos viram que, sob a coroa, o rei estava nu. Ele estava da cor da pele, como todos os outros. Ele se cobriu apenas com um saco e sentou-se sobre as cimas. E fez proclamar a Nínive:
"Por ordens do Rei e de sua corte nem homem nem animal, de pequeno
ou de grande porte, comerá nada, provará ou beberá
nada, nem mesmo água. Homens e animais cubram-se de sacos e
voltem-se para o Ser que os fez ser, com todo o fervor. Cada um se
arrependa do seu mau caminho e da violência em suas ações.
Quem sabe, talvez Deus se arrependa, se detenha em sua cólera
e nós não sofreremos mais as conseqüências
negativas dos nossos atos ". Aquele que É viu o que se
passava, viu que o povo se convertia e o razal, que devia acontecer,
não aconteceu.
Mas Jonas ficou muito irritado e se encolerizou, porque o mau deve perecer, a justiça deve ser feita ao injusto, e dirigiu-se ao Senhor: "Senhor, não era isto que eu tinha previsto, que Tu és um Deus injusto, que não punes os maus.
É por isto que eu fugi para Társis, porque eu sabia que Tu és um Deus cheio de graça e de misericórdia, que não arrazas a cólera e és rico em bondade.
Agora, Senhor, eu estou farto. Tira a minha vida, porque eu prefiro morrer a viver assim". Aquele que É, disselhe: "Será que tu tens razão de ficar irritado?" Jonas não quis escutar mais nada. E foi embora, novamente, para longe do seu Deus.
Ele foi sentar-se ao leste da cidade, construiu para si uma cabana e lá ficou para observar o que aconteceria. E Aquele que É fez nascer uma planta, que cresceu por sobre a cabeça de Jonas, a fim de dar-lhe sombra e protegê-lo do calor. Jonas ficou cheio de uma grande alegria por causa dessa planta. Mas então, de madrugada, Deus enviou um verme que roeu as raízes da planta e ela secou. Porque as coisas da vida nunca acontecem como nós queremos que aconteçam. Aquilo que gostaríamos que durasse, não dura muito tempo; e aquilo que gostaríamos que desaparecesse, permanece.
Enquanto o sol se levantou, Deus enviou, do leste, um vento abrasador: O sol batia na cabeça de Jonas e ele pensou que ia desmaiar. Jonas pediu a morte, dizendo: "Eu prefiro morrer a viver assim ". E Deus disse a Jonas: "Será que fazes bem em ficar irado por causa desta planta?" Jonas respondeu: "Eu sei bem da minha vida. Eu tenho razão em ficar irado ". Então, Aquele que É lhe diz: "Tu tiveste piedade de uma planta que não te custou esforço algum, que nasceu e morreu entre uma noite e outra. E por que eu não terei piedade de Nínive, a grande cidade, onde há mais de cento e vinte mil pessoas que não distinguem sua mão direita da sua mão esquerda, que não distinguem o bem do mal e que há, também, muitos animais?"
E assim termina o Livro de Jonas.
Do livro: “Dos medos do eu ao mergulho no ser” de Jean-Yves Leloup
Conheci há muitos anos um ex-executivo que largou tudo para se tornar marceneiro. Ele teve despertado em si uma forte espiritualidade, que o conduzia por novos caminhos como, por exemplo, a renúncia à competitividade estéril do "mercado". Passou a se vestir só de branco e se mudou de São Paulo para a sua casa numa cidadezinha aprazível.
Sua mulher o acompanhou, pois além de amá-lo muito, também sentiu o apelo de valores mais espirituais. Seus filhos pré-adolescentes porém não assimilaram bem a mudança. Em pouco tempo o "Júnior" começou a dar sinais de rebeldia. O pai estoicamente agüentou a destruição de dois carros em "rachas" irados, a primeira bagana de maconha, mas não resistiu quando o Junior resolveu pintar seu quarto de preto com caveiras brancas. O meu amigo surtou, saiu da atitude zen, para um comportamento esperado de um troglodita devastador. Mais tarde caiu numa prostração tipo poço sem fundo.
Nas nossas conversas tentei mostrar a ele que aquilo não era uma provação, nem um teste de sua convicção espiritual, afinal quem seria o articulador do teste? E se houvesse alguém (tipo Deus, Anjos, etc) porque ele era o escolhido? Será que a sua vida tinha toda essa importância? Tentei mostrar a ele que o mundo era feito dessa diversidade mesmo, e que o inferno era uma concepção individual: cada um cria o seu ou permanece no seu, mas sempre há uma escolha envolvida, ou QUASE SEMPRE.
Essa introdução toda é para falar dos seres mais sensíveis, mais para lá no universo espiritual que para cá do mundo material denso. Sei que entre os meus leitores, se é que existe essa categoria, há muitas pessoas que vislumbraram a dimensão espiritual e seus valores. Sei também o quanto é penoso para essas pessoas conviverem com a crueza, o tolo imediatismo e sensorialismo do nosso mundinho carcará sanguinolento.
Convivi na minha juventude com um amigo que de repente se descobriu um ser iluminado. Parou de comer carne, virou iogue, falava sempre mansamente, aboliu os palavrões e ficou com aquele olhar beatífico dos seres que "sabem a verdade suprema" e que nela habitam, pelo menos parcialmente. Ele me relatou um dia que ao andar pela rua, tinha sempre de atravessar cada vez que tinha de passar em frente a um boteco ou a um açougue. Senão ficaria mal. Fiquei muito impressionado com aquilo e me senti um tosco, pois apesar de me achar espiritualizado também passava em frente aos açougues e aos botequins de pinguços e não sentia nem cócegas.
Mas como a maioria dos seres que se elevou sem ser de elevador, tudo é muito mais um desejo de ser do que um ser propriamente dito. Um dia estava num ônibus e o vi passeando com uma moça e conversando animadamente em frente a um botequim de cachaceiros!
Não quero dizer que não sofram com a estupidificação das gentes. Sofrem porque não conseguem conviver com as diferenças de modo sereno. Entendo que para seus valores mais depurados o varejo não espiritual das massas parece pobre, vil e uma perda de tempo precioso. Até concordo. Entendo que por terem superado certas premências do corpo de desejos (fumar, beber, drogar-se, comer carne, ganância, agressividade, compulsão sexual, etc) lamentem não poder cooptar o resto da humanidade para esse estado de maior equilíbrio e paz interior. Mas essa sensibilidade pode ser uma deficiência se não vier acompanhada de um senso de realidade e de capacidade de agir prontamente num mundo nada zen.
Conheci pessoas ótimas, sensíveis, dedicadas à elevação da humanidade a patamares mais elevados, mas absolutamente incapazes de trocar o óleo do carro. Com o motor fundido, se perguntavam se aquilo não seria alguma maracutaia do "maligno" para afastá-las dos caminhos para a divindade. De outra vez estávamos no meio de uma conversa animada quando a luz se apagou. Até que foi legal continuar à luz de velas. Mas perdeu a graça quando eu soube que a minha anfitriã havia esquecido de pagar as contas de luz! Para os mais jovens digo e repito de forma obsessiva: Pés no chão! Foco! Estejam ligados! A vida é aqui e agora! Antes de viajar (no sentido literal mesmo) verifiquem o tanque de combustível. Por mais que desejem o carro não será movido a energia mental, e se ficar sem combustível não esperem que os mestres ascencionados venham a empurrar o "poisé"!
Comprometer-se com um programa de desenvolvimento espiritual, rejeitar certos hábitos "decadentes", adotar uma postura mental mais despojada de mesquinharias materialistas, não é incompatível com o estar no mundo. Refinar seus gostos tanto musicais quanto alimentares, não precisa ser uma renúncia ao uso lúcido das ferramentas sociais a nossa disposição. Ser espiritualizado não é uma autorização divina para não pagar os impostos, ou para não tomar banho.
Quando esses não integrados demonstram essa incapacidade de lidar com o bê-a-bá das regras do jogo, estão adotando uma atitude masoquista. O rebote sempre vem e vem machucando. O pior é que quase sempre machuca mais aqueles que estão a volta do zen (noção), pois eles acabam assimilando os reveses como provas dos sacrifícios naturais da sua opção. Já ouvi muitas vezes a frase: "se Jesus que era Jesus acabou na cruz, não podemos esperar coisa muito melhor." Ou seja, eles e elas vêm os sofrimentos causados por sua própria imperícia como provações do plano espiritual para testar a sua opção de vida.
A busca da elevação espiritual não se faz dando-se as costas a realidade seja ela o quê for. A espiritualidade não pode ser desculpa para a nossa incompetência em lidar com o mundo a nossa volta. Ser zen não deve ser um pretexto para a preguiça, a covardia, ou a tibieza mental. Parafraseando a minha avó: o verdadeiro espiritualista mantem um olho no peixe e outro no gato.
Seja zen, mas seja pragmático
por Roberto Goldkorn in Revista Vida Simples
“Eu conheço um planeta onde há um homem vermelho,
quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca
amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão somas. E o
dia todo repete como tu: “Eu sou um homem sério! Eu sou
um homem sério!” e isso o faz inchar-se de orgulho. Mas
ele não é um homem; é um cogumelo!”
Trecho do livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint Exupéry
– Editora Agir
Fiquei refletindo, depois de ler esta brilhante afirmação de Saint Exupéry, sobre ser uma pessoa ou um cogumelo... Pensei que ser um cogumelo faz jus ao sentimento de solidão característico dos últimos tempos.
Temos experimentado uma combinação explosiva entre insegurança e medo, causando-nos uma solidão modificada, diferente daquela que sentíamos há algumas décadas, especialmente por ser tão contraditória a dinâmica atual do mundo, que nos proporciona tantas formas de encontros.
A tecnologia facilita, aproxima, encurta distâncias, oferece inúmeras opções para se “conhecer” pessoas. Entretanto, o fato é que estamos cada vez mais nos sentindo sós, descartados de um todo que outrora confortava, acolhia, preenchia qualquer súbita sensação de vazio.
Sim, é verdade, somos singulares por natureza. Uma pessoa, uma vida. Somos indivíduos por definição. Há que se considerar, portanto, a magia e a importância existentes na condição de ‘ímpar’ que nos identifica. Isto é indiscutível!
Porém, temos deixado escapar uma percepção fundamental: a de que somos parte essencial de um todo, de um Universo composto por milhões de outras partes; e, sobretudo, que sem nos moldarmos de maneira afetivamente inteligente a algumas dessas partes (àquelas que nos são complementares e preciosas), nossa existência termina perdendo o sentido.
A nossa forma só compõe um desenho realmente válido quando encaixada a outras formas. Mas, para tanto, precisamos nos envolver e nos permitir, considerar possível a entrega, apesar de sentimentos como insegurança e medo.
Temos misturado e confundido dois termos que são, na verdade, antagônicos: amor-próprio e egoísmo. Temos acreditado - catastroficamente - que, ao desenvolvermos uma boa auto-estima e respeitarmos nossos desejos, deveremos - quase como numa conta matemática - desconsiderar o outro. Como se numa relação houvesse espaço para somente um ser respeitado e, consequentemente, o outro ser desrespeitado.
Temos agido equivocadamente por apostarmos que em detrimento do que “o outro é”, deve prevalecer sempre o que “eu sou”. Primeiro a minha vontade. Depois, se for cabível, dou atenção ao que o outro deseja. E se ele não aceitar que assim seja, então que ‘vá às favas’.
Temos sido ingênuos o bastante para acreditar que se o outro não nos aceita como somos é porque não gosta de nós o suficiente e, portanto, não merece estar ao nosso lado e desfrutar de nossa companhia.
Ledo engano. Relações que valem a pena são aquelas onde há espaço para todos serem respeitados, porque existe consciência e disponibilidade para conhecer a si mesmo e ao outro. O intuito tem de ser o de investir num relacionamento cujo objetivo é servir de caminho para a evolução de todos os envolvidos, tenha ele o nome que for: amizade, parceria, parentesco, casamento, namoro ou qualquer outro.
Mas temos perdido a capacidade de acolher as diferenças, de aceitar aquilo que nos obriga a nos olhar de frente, sem as máscaras. Não queremos rever nossas escolhas. Não queremos mudar para nos adaptar. A partir das teorias atuais, mudar pelo outro não faz parte das regras. Não combina com amor-próprio. No entanto, por conta da inflexibilidade e da distorção sobre o que venha a ser o tal do amor-próprio, estamos todos morrendo de solidão.
É... eu sei que não dá para ser profundo com todo mundo. Não teríamos tempo nem disponibilidade interna para tanto. Somos naturalmente seletivos. Por isso, escolhemos (ou pelo menos deveríamos escolher) certas pessoas para quem nos entregamos a ponto de nos mostrar sem máscaras, sem meias-palavras, sem pensar tanto em como devemos nos comportar e o que dizer ou em quem ser a cada instante.
Invista nessas relações, pois é justamente onde você vai encontrar espaço para recarregar suas energias. É esse tipo de encontro que o faz sentir-se integrante, porque mais do que ser adequado, nelas você é autêntico, genuíno, inteiro e, portanto, brilhante. Chega de ser cogumelo!
Rosana Braga é Escritora,
Jornalista e Consultora em Relacionamentos Palestrante e Autora dos
livros "Alma Gêmea - Segredos de um Encontro"
e "Amor - sem regras para viver", entre outros.
Por mais que o poder e o dinheiro tenham conquistado uma ótima posição no ranking das virtudes, o amor ainda lidera com folga. Tudo o que todos querem é amar. Encontrar alguém que faça bater forte o coração e que justifique loucuras. Que nos faça entrar em transe, cair de quatro, babar na gravata. Que nos faça revirar os olhos, rir à toa, cantarolar dentro de um ônibus lotado. Tem algum médico aí?
Depois que acaba essa paixão retumbante, sobra o quê? O amor. Mas não o amor mitificado, que muitos julgam ter o poder de fazer levitar. O que sobra é o amor que todos conhecemos: o sentimento que temos por mãe, pai, irmãos, filhos e amigos. É tudo o mesmo amor, só que entre amantes existe sexo. Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudade, quatro de ódio, seis espécies de inveja. O amor é único, como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge, ou a Deus. A diferença é que, como entre marido e mulher não há laços de sangue, a sedução tem que ser ininterrupta. Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, e de cobrança em cobrança acabamos por sepultar uma relação que poderia ser eterna.
Casaram. Te amo para lá, te amo para cá. Lindo, mas insustentável. O sucesso de um casamento exige mais do que declarações românticas. Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo teto tem que haver muito mais que amor, e às vezes nem necessita um amor tão intenso. É preciso que haja, antes de mais nada, respeito. Agressões zero. Disposição para ouvir argumentos alheios. Alguma paciência. Amor, só, não basta.
Não pode haver competição. Nem comparações. Tem que ter jogo de cintura para acatar regras que não foram previamente combinadas. Tem que haver bom humor para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades. Tem que saber relevar. Amar, só, é pouco.
Tem que haver inteligência. Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais, rejeições, demissões inesperadas, contas pra pagar. Tem que ter disciplina para educar filhos, dar exemplo, não gritar. Tem que ter um bom psiquiatra. Não adianta, apenas, amar.
Entre casais que se unem visando a longevidade do matrimônio tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, independência, um tempo para cada um. Tem que haver confiança. Uma certa camaradagem: às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão. E que amar, solamente não basta.
Entre homens e mulheres que acham que amor é só poesia tem que haver discernimento, pé no chão, racionalidade. Tem que saber que o amor pode ser bom, pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado. O amor é grande mas não é dois. É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência. O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.
Martha Medeiros in "Trem Bala"
Que princípio é este? Os 10% da vida estão relacionados com o que se passa com você, os outros 90% da vida estão relacionados com a forma como você reage ao que se passa com você.
O que isto quer dizer? Realmente, nós não temos controle sobre 10% do que nos sucede. Não podemos evitar que o carro enguice, que o avião atrase, que o semáforo fique no vermelho. Mas, você é quem determinará os outros 90%. Como? Com sua reação.
Exemplo: Você está tomando o café da manhã com sua família. Sua filha, ao pegar a xícara, deixa o café cair na sua camisa branca de trabalho. Você não tem controle sobre isto. O que acontecerá em seguida será determinado por sua reação. Então, você se irrita.
Repreende severamente sua filha e ela começa a chorar. Você censura sua esposa por ter colocado a xícara muito na beirada da mesa. E tem prosseguimento uma batalha verbal. Contrariado e resmungando, você vai mudar de camisa. Quando volta, encontra sua filha chorando mais ainda e ela acaba perdendo o ônibus para a escola. Sua esposa vai pro trabalho, também contrariada. Você tem de levar sua filha, de carro, pra escola. Como está atrasado, dirige em alta velocidade e é multado. Depois de 15 min. de atraso, uma discussão com o guarda de trânsito e uma multa, vocês chegam à escola, onde sua filha entra, sem se despedir de você. Ao chegar atrasado ao escritório, você percebe que esqueceu de sua maleta. Seu dia começou mal e parece que ficará pior. Você fica ansioso pro dia acabar e quando chega em casa, sua esposa e filha estão de cara fechada, em silêncio e frias com você.
Por quê? Por causa de sua reação ao acontecido no café da manhã. Pense: por quê seu dia foi péssimo? A) por causa do café? B) por causa de sua filha? C) por causa de sua esposa? D) por causa da multa de trânsito? E) por sua causa?
A resposta correta é a E. Você não teve controle sobre o que aconteceu com o café, mas o modo como você reagiu naqueles 5 minutos foi o que deixou seu dia ruim.
O café cai na sua camisa. Sua filha começa a chorar. Então, você diz a ela, gentilmente: "está bem, querida, você só precisa ter mais cuidado". Depois de pegar outra camisa e a pasta executiva, você volta, olha pela janela e vê sua filha pegando o ônibus. Dá um sorriso e ela retribui, dando adeus com a mão. Notou a diferença? Duas situações iguais, que terminam muito diferente. Por quê? Porque os outros 90% são determinados por sua reação.
Aqui temos um exemplo de como aplicar o Princípio 90/10. Se alguém diz algo negativo sobre você, não leve a sério, não deixe que os comentários negativos te afetem. Reaja apropriadamente e seu dia não ficará arruinado. Como reagir a alguém que te atrapalha no trânsito? Você fica transtornado? Golpeia o volante? Xinga? Sua pressão sobe? O que acontece se você perder o emprego? Por quê perder o sono e ficar tão chateado? Isto não funcionará. Use a energia da preocupação para procurar outro trabalho. Seu vôo está atrasado, vai atrapalhar a sua programação do dia. Por quê manifestar frustração com o funcionário do aeroporto? Ele não pode fazer nada. Use seu tempo para estudar, conhecer os outros passageiros. Estressar-se só piora as coisas.
Agora que você já conhece o Princípio 90/10, utilize-o. Você se surpreenderá com os resultados e não se arrependerá de usá-lo. Milhares de pessoas estão sofrendo de um stress que não vale a pena, sofrimentos, problemas e dores de cabeça.
Stephen Covey – escritor
Bem que a gente podia fazer uma reforma para valer, não essas dos políticos e dos papéis, mas alguma coisa pessoal. Vital. A reforma das nossas prioridades. Cansei de ouvir todo mundo reclamando que não tem tempo nem pra respirar, nada mais de conversas à mesa, nada mais de passeio tranqüilo, muito menos de sossego em família.Amantes, namorados, casais, amigos, todo mundo corre afobadíssimo para cumprir mil tarefas: das quais certamente novecentos e noventa seriam dispensáveis se a gente examinasse direito. Tempo é dinheiro, diziam os pragmáticos, e isso se tornou lei universal. A conta do banco, o colégio dos filhos, o plano de saúde (num pais onde o INSS é meio suicídio andado), o restaurante e o bar, a roupa de grife e a bolsa, até a mochila escolar do momento, sem a qual, é claro, o filho não garante nem que consiga passar de ano. A lista é longa, segundo a preferência de cada um. Fico imaginando que se a gente fizesse uma faxina em nossos compromissos e deveres, boa parte desapareceria ligeiro no ralo do bom senso, e desapareceria para todo o sempre no nebuloso das nossas iniqüidades mais banais. Sobrariam alguns compromissos, dos quais não há como fugir: provavelmente saúde, prestação do apartamento, escola (a pública estando como está) e alguns outros (poucos). Comprar não é um dever, quando não se trata do indispensável ou do que faz bem. Comprar pode ser, e tem sido, em grande parte moda, mania, quase neurose. Andar com a roupa do momento pode ser burro e pobre: por que todas as meninas parecendo fantasiadas para desfilarem no mesmo bloco? Por que todas com a mesma sandália só porque alguém na televisão...? Por que pais e mães se sacrificam para poderem dar aos meninos alguns absurdos caros, talvez ridículos? Não quero que meus netos e netas andem muito diferentes de sua turma. Mas não desejaria que seus pais trabalhassem mais horas do que o necessário para lhes permitir algumas insanidades.Não acho que os casais precisem ter apenas, para seu encontro, as poucas horas da noite, exaustos do dia intenso, da hora extra, quem sabe até do trabalho no fim de semana. Se for para sobreviver com dignidade, paciência: muitas vezes tem de ser. Mas muitíssimas vezes não precisaria ser assim. Labutamos como animais para além do que seria humano, e para aquilo que nem é importante: para o fútil excessivo (um pouco de futilidade, sim, ou nos desumanizamos), para o mais do que tolo (um pouco de tolice, sim, ou viramos estátuas). Uma hora menos de trabalho extra por dia - não vou poder comprar aquele tênis importado caríssimo, o menino vai emburrar - pode significar uma hora de carinho, de convívio a mais. Um fim de semana menos de trabalho extra - mas como vou dar aquela roupa caríssima, a menina vai se frustrar, e tem o cursinho de inglês, e o de nem lembro o quê... e a mulher quer aquelas férias naquele hotel caro, e chegou a hora de trocar o carro... - pode representar um encontro onde a gente vai enxergar de verdade o filho, o irmão, a amante, o marido, o amigo. Ou a si mesmo, ficando quieto na rede, na praça, até na cama, pensando. De bobeira. Olhando a nuvem, o galho de flor pela janela, deitado na grama ou na areia com a cara no sol, sentindo o mundo respirar, e fazendo parte desse ritmo imenso. Sentindo que somos gente, dentro de algo misterioso chamado vida. Reformulando nossos planos, tentando saber o que queremos para nós. Muito do que gastamos (e nos desgastamos) nesse consumismo feroz podia ser negociado com a gente mesmo: uma hora de alegria em troca daquele sapato. Uma tarde de amor em troca da prestação do carro do ano; um fim de semana em família em lugar daquele trabalho extra que está me matando e ainda por cima detesto. Não sei se sou otimista demais, ou fora da realidade. Mas, à medida que fui gostando mais de meus jeans, camisetas e mocassins, me agitando menos, querendo ter menos, fui ficando mais tranqüila e mais divertida. Sapato e roupa simbolizam bem mais do que isso que são: representam uma escolha de vida, uma postura interior. Nunca fui modelo de nada, graças a Deus. Mas amadurecer me obrigou a fazer muita faxina nos armários da alma e na bolsa também. Resistir a certas tentações é burrice; mas fugir de outras pode ser crescimento, e muito mais alegria.
Cada um que examine o baú de suas prioridades, e faça a arrumação que quiser ou puder. Que seja para aliviar a vida, o coração e o pensamento - não para inventar de acumular ali mais alguns compromissos estéreis e mortais.
Lia Luft in "Pensar É Transgredir"
Muitas vezes a gente não se livra de quem nos irrita exatamente porque estamos presos ao pensamento auto-imposto de que não temos saída frente àquela situação! Ou pior, de que ela não deveria sequer ter acontecido!
Enquanto não aceitamos como de nossa escolha aquilo que nos acontece, ou, simplesmente, enquanto não aceitamos o que nos acontece, ficamos presos à idéia de que poderíamos fazer algo para que aquilo não tivesse sido assim. Grande parte do nosso sofrimento e aflição vem justamente dessa tentativa de negar o que aconteceu usando a justificativa de que não deveria ter acontecido. Tipo: "Aquela pessoa não poderia ter falado assim comigo!" "Aquele carro não poderia estar estacionado ali!". Enfim, vários de nossos motivos para irritação baseiam-se na suposição de que o que está acontecendo é ERRADO. Só temos a sensação de que não temos saída diante da situação porque desperdiçamos nossa energia pensando que não deveria ter sido assim; então ficamos querendo "consertar" o que ocorreu baseados em nossa ideia do que seria o CERTO. Se aceitássemos o que aconteceu apenas como o acontecido, podíamos perfeitamente "partir pra outra" e tomar providências para não termos mais que estar naquela situação.
A irritação resulta, portanto, da frustração que sentimos ao nos darmos conta de que as situações não fluem de acordo com as nossas necessidades imediatas. Somos como crianças mimadas: acreditamos, sem nem mesmo saber por que, que seria natural poder controlar as pessoas e as situações como nos convém. A irritação se atenua conforme abandonamos o controle excessivo e voltamos a confiar no fluxo natural dos acontecimentos. Quando recuperamos a calma, não temos dificuldade em reconhecer que ficar irritados é tempo perdido. No entanto, temos que reconhecer que, quando somos tomados pela irritação, estamos nos sentindo carentes e desprotegidos como crianças pequenas quando estão desorientadas.
Hugh Prather sugere: "Antes de dormir, anote as seguintes palavras e coloque-as num lugar em que possa vê-las quando acordar: nada dará certo hoje. Por isso, relaxarei e me divertirei. Admito que se trata de um objetivo um tanto estranho, mas ele põe em prática o que acabamos de discutir - ou seja: c essencial para a liberdade mental é ver o mundo exatamente como ele é e delicadamente recusar qualquer apelo interior ou exterior para mudar nossa natureza básica. Isto não significa que jamais implementaremos mudanças que poderiam beneficiar as pessoas a quem queremos bem e a nós mesmos. A ideia é que as mudanças sejam feitas pacificamente.
Certa vez, Lama Gangchen Rinpoche, ao nos falar sobre a paz interior, disse-nos: "Não é preciso reagir, está tudo bem". Esta frase teve um grande efeito sobre mim. Sem perceber, respirei profundamente e relaxei: finalmente podia admitir que estava tudo bem.
Geralmente, estamos questionando o mundo à nossa volta: criticamos, duvidamos, pomos tudo e todos à prova. Em nosso mundo interior, algumas vezes pensamos para não sentir e, outras tantas, queremos sentir sem correr o risco de pensar! Sem contar as vezes que dizemos algo que, de fato, não sentimos.
Há um conflito entre o pensar e o sentir. Quando fechamos os olhos para perceber nosso mundo interior, observamos o sutil hábito mental da auto-rejeição. Podemos notar que temos a tendência de lutar contra o que estamos sentindo quase que o tempo todo.
O pensamento é um hábito mental, enquanto o sentimento
é a memória de uma experiência, através
da qual passamos a dar valor a uma sensação. Xào
é possível sentir através do pensamento. Isto
é, não basta pensar o sentimento. É preciso sentir
o pensamento para tocar o grande coração: nossa boa
auto-estima.
É possível desapegar-se da irritação
Quando estamos com a lixeira de nosso computador interior lotada de informações inúteis, precisamos parar para esvaziá-la. A falta de espaço interno torna-se relevante: nos tornamos impacientes e irritadiços, e nada tem graça. Tudo se torna denso, como um engarrafamento no final da tarde: não podemos ir nem para frente, nem para trás, e ficar onde estamos parece que vai nos levar à loucura!
Admitir que estamos estressados nos ajuda a efetivar uma mudança em nosso estilo de vida. Em geral, após termos nos afastado das situações que nos estressam, depois de umas férias, por exemplo, estamos mais atentos aos padrões de comportamento que não queremos repetir. Para aproveitar uma nova disposição frente às situações de pressão, devemos recomeçar nossas atividades de modo pacífico, isto é, menos reativos.
Muitas vezes, temos de nos dizer que tudo está bem, mesmo quando tudo não vai bem. Intuitivamente sabemos que não podemos pôr mais lenha na fogueira: o calor dos conflitos já está nos queimando. É hora de suavizar e reverter, fazer as pazes. Quando passamos a lidar positivamente com alguém ou com uma situação à qual estávamos reagindo negativamente, a energia muda: surgem soluções inesperadas. O que nossos inimigos menos esperam é serem bem tratados por nós. Quando deixamos de ser reativos, rompemos o hábito de nadar contra a correnteza.
Não ser reativo não é o mesmo que ser submisso ou passivo. Muitos menos ser capacho de egos afoitos. Não ser reativo é saber distanciar-se para contemplar o fluxo dos acontecimentos e. então, com nova visão, participar daquela realidade com calma e clareza.
Quando estamos bem centrados em nosso eixo de paz interior, somos
também capazes
de perceber quando é hora de reagir — reconhecer o momento
em que ser ativo é um ato de boa auto-estima e responsabilidade.
Não devemos ser cúmplices de situações
que consideramos desequilibradas, ilícitas ou falsas. Nossa
auto-estima nos orienta a tomar decisões sobre quando devemos
entrar, permanecer ou sair das situações. Ser realista
com relação à nossa verdadeira situação
é uma atitude saudável.
Quando estamos irritados, somos como crianças com sono: ficamos extremamente vulneráveis, tudo nos perturba. A irritação nos torna vítimas fáceis das circunstâncias, o que nos faz sentir cada vez mais enfraquecidos e impotentes diante da vida. Portanto, o melhor é, literalmente, ir dormir e, quando estivermos descansados, reconsiderar então nossos julgamentos. Somente ao descansar é que o sistema nervoso poderá se recuperar e, assim, a irritação naturalmente pode desaparecer.
Devemos aprender a não nos identificarmos com nossa irritação. Não precisamos nos tornar vítimas de nossa própria irritação. O fato de não querermos ficar nesta posição tão desvantajosa já desperta em nós a consciência necessária para fazer algo que nos ajude a sair deste estado negativo.
Podemos começar fazendo algo oposto ao que estivermos fazendo. Por exemplo, podemos mudar nossa posição física: se estivermos sentados, levantamos, se estamos parados, vamos andar. Mudar o estado de coisas, mudar de assunto, faz nossa mente desanuviar. Tomar um banho, lavar o rosto, chacoalhar o corpo e, se possível, emitir em voz alta sons diversos e sem sentido, com a intenção de exteriorizar e nos desprender de nossa irritação, são também bons procedimentos.
Quando criticamos nossos sentimentos, estamos armazenando energia de autocondenação. Os sentimentos não aceitos e não integrados sustentam nosssa atitude de auto-rejeiçâo. Eles ficam armazenados em nosso corpo, nos músculos, órgãos e chakras.
Quando nos abrimos para sentir nossos sentimentos, nos abrimos também para sentir nosso corpo. Se nos mantivermos ao mesmo tempo atentos e relaxados na percepção de um sentimento, poderemos localizar a área física onde ele está se concentrando. Pousar as mãos nesta região, e visualizar ali a chama de uma vela brilhante e estável, irá gerar calor e calma, que nos ajudarão a recuperar nossa energia vital.
Ao manter os olhos fechados, podemos nos conectar também com nosso eixo de descanso interno: um estado de aceitação incondicional em que nossa mente relaxa enquanto nosso corpo respira livre e espontaneamente.
Bel César in O Livro Das Emoções – Reflexões Inspiradas na Psicologia do Budismo Tibetano – Editora Gaia
A boa comunicação entre as
pessoas é a arma mais eficaz para disseminar a paz. É
o que diz o psicólogo Marshall Rosenberg, porta-voz mundial
da comunicação não-violenta
Lembra a última vez que você discutiu com alguém, levantou a voz e saiu praguejando sem chegar a um entendimento? Pois saiba que guerras entre nações, brigas familiares, arranca-rabos no trabalho e a maior parte dos conflitos em todo o mundo (incluindo essa sua discussão) têm algo em comum: poderiam ser evitadas apenas com... palavras. Essa é a teoria defendida pelo psicólogo americano Marshall B. Rosenberg, que desde a década de 1960 se dedica a promover o diálogo pacífico mundo afora. Segundo ele, é na maneira como falamos e ouvimos os outros que está a chave para o problema das desavenças e discórdias. Marshall fundou em 1984, na Califórnia, o Centro de Comunicação Não-Violenta (Center for Nonviolent Communication) e tem grupos de pesquisa em mais de 50 países, incluindo o Brasil. Viaja constantemente para mediar conflitos e levar programas de paz a regiões assoladas por guerras, como Sérvia e Croácia. Aqui ele conta a estratégia para apaziguar os combates verbais do nosso dia-a-dia.
Como você começou a se interessar pelo assunto?
Cresci em Detroit, uma das cidades mais violentas dos Estados Unidos. O tempo inteiro havia brigas de rua entre as comunidades brancas e negras, inflamadas pelo preconceito. Quando isso acontecia, me escondia no porão. Até que decidi fazer algo a respeito – queria entender por que agimos de maneira violenta quando não nos entendemos. Comecei a estudar algumas maneiras de ajudar a contribuir para o bem-estar de todos. A comunicação não-violenta foi o resultado de minha especialização em psicologia social.
Quando acontece, então, a falta de comunicação?
Quando não há troca. Geralmente estamos tão preocupados com nosso ponto de vista que não escutamos o que os outros estão dizendo. Ou pior: quando julgamos aqueles que não agem de acordo com o que acreditamos ser correto. Se você quer viver no inferno, é só pensar no que há de errado com as pessoas que fazem coisas de que você não gosta. Se quer piorar um pouco mais, diga a eles o que você acha que está errado. Essa maneira cricri de se comunicar só gera raiva, medo, culpa.
O que podemos fazer para evitar tantos atritos?
Quando jovem, aprendi a me comunicar de maneira impessoal, que não exigia revelar o que se passava dentro de mim. Quando encontrava pessoas com comportamentos de que não gostava ou que não compreendia, reagia considerando que fossem errados. Aí ocorreu o clique. Entendi que a grande falha da comunicação está justamente em apontar problemas nos outros – em vez de olhar o que eles causam em nós. A comunicação começa quando expressamos nossos sentimentos. Não fazemos isso porque achamos que ficamos vulneráveis. Mas só assim criamos um relacionamento baseado na sinceridade. A partir do momento que as pessoas falam o que precisam, em vez de falarem o que está errado com os outros, o entendimento aumenta.
E como isso acontece quando há um assunto que gera discórdia?
O primeiro passo é reformular a maneira como falamos e ouvimos o outro. A idéia é treinar sempre a se expressar com honestidade e clareza, ao mesmo tempo que damos aos outros uma atenção respeitosa. Mas temos a síndrome do disco riscado: repetimos reações, julgando os outros. Existe um treino que ensinamos a todos que buscam se comunicar de maneira pacífica – do chefe de Estado à professora, do marido ao presidiário.
Como é esse treino?
Primeiro você observa um determinado acontecimento que afeta seu bem-estar, evitando julgamentos. Em seguida, identifi ca como você se sente ao observar aquela ação: se ficou magoado, assustado, alegre etc. Então reconhece quais são suas necessidades que não estão sendo supridas. A partir dessa refl exão é possível se comunicar com a pessoa ligada à ação, para resolver o conflito.
Você tem um exemplo?
Vamos supor que uma mãe vai falar com o filho adolescente que deixou a sala uma bagunça. Um jeito não-violento de se expressar poderia ser o seguinte: "Roberto, quando vejo bolas de meia sujas na sala, fico irritada porque preciso de mais ordem no espaço que usamos em comum. Você poderia colocar as meias no seu quarto ou na lavadora?" Veja bem, a mãe poderia reagir de diversas maneiras: bufar, punir o filho. Mas quando pratica a comunicação não-violenta ela deixa claro o que observa, como se sente, qual necessidade não está sendo atendida. Pode ter certeza de que a chance de ser compreendida é maior.
Falando assim parece fácil, mas na prática...
Esses passos na verdade funcionam para termos mais consciência antes de agir de maneira reativa e impensada. Experimente respirar fundo e dar um tempo antes de começar a falar em uma situação que está prestes a entrar em ebulição. Parece papo pra boi dormir, mas funciona! Assim você consegue elaborar o que o está incomodando.
Mas e quando a outra pessoa nos ataca verbalmente?
Da mesma maneira que é possível mudar o jeito de se expressar, também dá para escutar os outros de um jeito diferente. Todo tipo de crítica, ataque, insulto e julgamento desaparece quando concentramos a atenção em ouvir os sentimentos e necessidades por trás da mensagem. Quanto mais praticamos isso, mais percebemos que por trás de todas essas mensagens que nos intimidam estão simples indivíduos com necessidades insatisfeitas pedindo que contribuamos para seu bem-estar.
por Marcia Bindo in Revista "Vida Simples"
Março/2007
Para saber mais
Livros: Comunicação Não-violenta – Técnicas
para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais, Marshall
Rosenberg, Ágora
"Se você tem entre vinte e setenta, sugiro que não se importe com convenções sociais. Elas foram feitas por quem não tinha coisa melhor para fazer, além de falar da vida dos outros. Vá e faça. Já que vão falar de você, de qualquer jeito, arrisque-se a ir contra a maré. O mundo espera isso de você. E, se não aprovarem, mande-os "catar coquinho na praia perdida".
Você é muito velho? Muito jovem? Muito gordo? Muito magra? Muito alto? Muito baixo? Muito rico? Muito pobre? Muito solitário?
Qual sua desculpa? Qual a razão, falsa, para não realizar seu potencial?
Quanto tempo você acredita que viverá? Cem anos? Cinqüenta? Vinte? Dez? Um?
Seja quanto for, você provavelmente estará errado. Nosso tempo médio de vida é até possível de saber. Mas uma média não é uma certeza. Um adolescente pode ter apenas mais quatro anos de vida, enquanto uma mulher de 70, pode ainda viver mais trinta e cinco. Já temos mais de 30 mil pessoas no Brasil acima dos 100 anos. Leciono na Universidade Federal de São Paulo para turmas nas quais o aluno mais jovem tem 60 anos!
Em um mundo no qual a expectativa média de vida era de 25 anos, como há apenas dois séculos, no Brasil, praticamente todos os meus leitores estariam mortos. Na verdade, com tanta inexperiência controlando os países, é um milagre que tenhamos chegado até aqui. Não que experiência seja garantia de qualidade, como podemos ver pelo que acontece no mundo.
Mas hoje, com a expectativa média de vida disparando, há um número crescente de homens e mulheres com 70, 80 ou 90 anos, vivendo ainda como as pessoas de 60 viviam, há somente duas ou três décadas.
Roberto Marinho (1904-2003) criou a Rede Globo quando completou 60 anos. Morreu depois dos 90. E ele era de uma geração em que a expectativa média de vida era de 40.
Mas isso não é um caso isolado. Ted Turner, o criador da CNN, a maior rede de notícias do mundo, era um playboy e esportista até os 40. Quase perdeu tudo, várias vezes na vida. Depois disso, criou a CNN, mesmo tendo sido sabotado várias vezes pelos concorrentes. Continua um playboy esportista.
Nelson Mandela ficou mais de dez anos sendo bloqueado ativamente pelo governo sul-africano e vinte sete anos na cadeia, por razões políticas. Aos setenta e dois anos começou tudo novamente, saindo da prisão, tornando-se presidente da África do Sul e mudando o país que liderou, além de entrar para a história do planeta. Ele nasceu em 1914.
Silvester Stallone (1946) filmou Rock Balboa (ou Rock 6) este ano e lançou-o há algumas semanas. Ele tem sessenta e um anos, e ainda está fisicamente como, há algumas décadas, estariam os lutadores de metade da sua idade. Na verdade, sua forma física está tão boa quanto a de seu oponente.
No Brasil, a revista Exame de dezembro do ano passado, publicou um artigo sobre o empresário Ueze Zahran, filho de imigrantes libaneses que fundou o Capagaz. Zahran controla um pequeno império de mais de 1 bilhão de dólares, fundado quanto ele tinha 31 anos. Mas o que chama a atenção é que ele está com oitenta e dois anos, e tem a disposição e a forma física de alguém muito mais jovem.
Na música, temos também um caso curioso. Eleito por uma publicação recente como principal símbolo sexual masculino do Brasil, Chico Buarque de Holanda também já passou dos sessenta anos. Nem vou falar dos Rolling Stones, que têm um público de fãs que incluem os que ainda nem saíram da puberdade. Impensável há algumas décadas!
Isso para não falar das pessoas que se casam com homens e mulheres que têm 30 anos menos que eles. E não me refiro a artistas, que casam e descasam como se trocassem de roupa, mas a gente comum. Algo está mudando. Algo que parte da nossa sociedade ainda não viu.
Se Mandela escutasse sua família, ficaria em casa recebendo alguma pensão do governo, sentado. Pense em um homem de 72 anos que ficou preso metade da vida. A maioria das pessoas imagina que homens com esta idade, deveria estar pensando em que programas de TV vão assistir hoje.
Stallone? Se escutasse os críticos, seria vendedor de bolinhos, no Central Park, e não um milionário ator que se diverte fazendo o que faz. Ted Turner? Estaria construindo barcos de pesca, e bebendo até cair, dia e noite. Zahran? Estaria na cadeira de balanço e teria passado o bastão há muito tempo para algum jovem de sua empresa. Se é que ainda teria uma empresa.
Para cada um desses homens, e mulheres que também têm história similar, sempre houve a crença de que nem tudo o que você começa, termina, mas absolutamente tudo o que você termina, teve que começar. Comece agora. Não amanhã. Não ontem. Hoje. Hoje.
Se você tem mais de cem anos, sugiro que vá com calma! O mundo ainda chega lá.
Se você tem mais de 70, sugiro que não tenha calma nenhuma. Faça o que você tiver vontade de fazer. Viaje, crie, pinte e borde -- e não me refiro a quadros, nem tecidos.
Se você tem entre vinte e setenta, sugiro que não se importe com convenções sociais. Elas foram feitas por quem não tinha coisa melhor para fazer, além de falar da vida dos outros. Vá e faça. Já que vão falar de você, de qualquer jeito, arrisque-se a ir contra a maré. O mundo espera isso de você. E, se não aprovarem, mande-os "catar coquinho na praia perdida".
Se você tem menos de vinte, aprenda tudo o que puder, e agradeça por viver em um século no qual você está no início da vida, não no final.
Não importa a idade que você tenha. É hora de começar algo novo. Nem tudo o que você começa, termina. Mas absolutamente tudo o que você termina, teve que começar. O que você vai começar hoje?
© Aldo Novak www.academianovak.com.br
Não porque hoje eu fiz aquela escova, estou maquiada e de roupa nova, mas sim porque tenho aquele brilho no olhar que faz com que você se impressione...
Não porque a empregada limpou a minha casa, e tenho cereais com leite desnatado, mas sim porque sobrou pizza de ontem, e enfim encontramos alguém que adora pizza fria com café....
Não porque serei aceita pelos teus amigos à primeira vista, mas sim porque minha personalidade, risada e carisma os deixará intrigados, aflitos e serenos ao verem como faço carinho em você...
Não porque agora estou empregada, disposta a viajar 350 quilômetros ou mais, para ter teu carinho e sorriso sincero, mas sim porque entre mil loucuras, falar ao telefone a meia noite não é nada demais, e porque sempre se pode começar uma carreira novamente se bem acompanhado.
Não porque tenho todas as respostas, mas porque te ajudarei a criar todas as perguntas e principalmente rirei daquelas que não teríamos coragem de falar aos outros.
Não porque sou a pessoa certa e nem você, mas sim porque somos os errados que se combinam, entendem e desentendem, mas querem sempre recomeçar...
Não porque emagreci uns quilos e posso convencer os outros de que sou bonita, mas sim porque tenho em mim a serenidade de ser o que sou e ser feliz com isso.
Sim porque já vi todos os filmes de romance em que tudo acaba bem, e os diferentes tem que mudar para serem amados, então hoje eu sei que aqui na vida real não há perfeição em nenhum dos lados.
Sim porque o amanhã pode ser tarde demais, e dizer o que sentimos não nos faz mais fracos, culpados ou submissos, mas sim nos faz humanos com vontade de ter uma história para contar.
Sim porque afinal esse sorriso largo, mãos pequenas, pernas roliças não são só parte do corpo, são uma pessoa em busca da felicidade de dividir uma história.
By Grace Bernardes in "Meus Guardados"
O mais recente livro de Carlos Moraes, o ótimo "Agora Deus vai te pegar lá fora", há um trecho em que uma mulher ouve a seguinte pergunta de um major:
"Por que você não é feliz como todo mundo?" A que ela responde mais ou menos assim: "Como o senhor ousa dizer que não sou feliz? O que o senhor sabe do que eu digo para o meu marido depois do amor? E do que eu sinto quando ouço Vivaldi? E do que eu rio com meu filho? E por que mundos viajo quando leio Murilo Mendes? A sua felicidade, que eu respeito, não é a minha, major."
E assim é. Temos a pretensão de decretar quem é feliz ou infeliz de acordo com nossa ótica particular, como se felicidade fosse algo que pudesse ser visualizado. Somos apresentados a alguém com olheiras profundas e imediatamente passamos a lamentar suas prováveis noites insones causadas por problemas tortuosos. Ou alguém faz uma queixa infantil da esposa e rapidamente decretamos que é um fracassado no amor, que seu casamento deve ser um inferno, pobre sujeito. É nestas horas que junto a ponta dos cinco dedos da mão e sacudo-a no ar, feito uma italiana indignada: mas que sabemos nós da vida dos outros, catzo?
Nossos momentos felizes se dão, quase todos, na intimidade, quando ninguém está nos vendo. 0 barulho da chave da porta, de madrugada, trazendo um adolescente de volta pra casa. O cálice de vinho oferecido por uma amiga com quem acabamos de fazer as pazes. Sentar-se no cinema, sozinho, para assistir ao filme tão esperado.
Depois de anos com o coração em marcha lenta, rever um ex-amor e descobrir que ainda é capaz de sentir palpitações. Os acordos secretos que temos com filhos, netos, amigos.
A emoção provocada por uma frase de um livro. A felicidade de uma cura. E a infelicidade aceita como parte do jogo — ninguém é tão feliz quanto aquele que lida bem com suas precariedades.
O que sei eu sobre aquele que parece radiante e aquela outra que parece à beira do suicídio? Eles podem parecer o que for e eu seguirei sem saber de nada, sem saber de onde eles extraem prazer e dor, como administram seus azedumes e seus êxtases, e muito menos por quanto anda a cotação de felicidade em suas vidas.
Costumamos julgar roupas, comportamento, caráter — juizes indefectíveis que somos da vida alheia — mas é um atrevimento nos outorgar o direito de reconhecer, apenas pelas aparências, quem sofre e quem está em paz.
Sua felicidade não é a minha, e a minha não é a de ninguém. Não se sabe nunca o que emociona intimamente uma pessoa, a que ela recorre para conquistar serenidade, em quais pensamentos se ampara quando quer descansar do mundo, o quanto de energia coloca no que faz, e no que ela é capaz de desfazer para manter-se sã. Toda felicidade é construída por emoções secretas. Podem até comentar sobre nós, mas nos capturar, só com a nossa permissão.
Martha Medeiros in Revista O GLOBO, 16/01/2005
Onde é narrada a singular aventura dos 35 camelos que deviam ser repartidos por três árabes. Beremiz Samir efetua uma divisão que parecia impossível, contentando plenamente os três querelantes. O lucro inesperado que obtivemos com a transação.
Poucas horas havia que viajávamos sem interrupção, quando nos ocorreu uma aventura digna de registro, na qual meu companheiro Beremiz, com grande talento, pôs em prática as suas habilidades de exímio algebrista.
Encontramos perto de um antigo caravançará (1) meio abandonado, três homens que discutiam acaloradamente ao pé de um lote de camelos.
Por entre pragas e impropérios gritavam possessos, furiosos:
- Não pode ser!
- Isto é um roubo!
- Não aceito!
O inteligente Beremiz procurou informar-se do que se tratava.
- Somos irmãos esclareceu o mais velho e recebemos como herança esses 35 camelos. Segundo a vontade expressa de meu pai, devo receber a metade, o meu irmão Hamed Namir uma terça parte, e, ao Harim, o mais moço, deve tocar apenas a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma 35 camelos, e, a cada partilha proposta segue-se a recusa dos outros dois, pois a metade de 35 é 17 e meio. Como fazer a partilha se a terça e a nona parte de 35 também não são exatas?
- É muito simples atalhou o Homem que Calculava. Encarrego-me
de fazer com justiça essa divisão, se permitirem que
eu junte aos 35 camelos da herança este belo animal que em
boa hora aqui nos trouxe!
Neste ponto, procurei intervir na questão:
- Não posso consentir em semelhante loucura! Como poderíamos concluir a viajem se ficássemos sem o camelo?
- Não te preocupes com o resultado, ó Bagdali! Replicou-me em voz baixa Beremiz. Sei muito bem o que estou fazendo. Cede-me o teu camelo e verás no fim a que conclusão quero chegar.
Tal foi o tom de segurança com que ele falou, que não tive dúvida em que imediatamente foi reunido aos 35 ali entregar-lhe o meu belo jamal(2), presentes, para serem repartidos pelos três herdeiros.
- Vou, meus amigos disse ele, dirigindo-se aos três irmãos -, fazer a divisão justa e exata dos camelos que são agora, como vêem em número de 36.
E, voltando-se para o mais velho dos irmãos, assim falou:
- Deverias receber meu amigo, a metade de 35, isto é, 17 e
meio. Receberás a metade de 36, portanto, 18. Nada tens a reclamar,
pois é claro que saíste lucrando com esta divisão.
E, dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:
- E tu, Hamed Namir, deverias receber um terço de 35, isto
é 11 e pouco.
Vais receber um terço de 36, isto é 12. Não poderás
protestar, pois tu também saíste com visível
lucro na transação.
E disse por fim ao mais moço: E tu jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu pai, deverias receber uma nona parte de 35, isto é 3 e tanto. Vais eceber uma nona parte de 36, isto é, O teu lucro foi igualmente notável. Só tens a agradecer-me pelo resultado!
E concluiu com a maior segurança e serenidade: Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir partilha em que todos três saíram lucrando couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e 4 ao terceiro, o que dá um resultado (18+12+4) de 34 camelos. Dos 36 camelos, sobram, portanto, dois.
Um pertence como sabem ao bagdáli, meu amigo e companheiro, outro toca por direito a mim, por ter resolvido a contento de todos o complicado problema da herança!
- Sois inteligente, ó Estrangeiro! Exclamou o mais velho dos três irmãos.
Aceitamos a vossa partilha na certeza de que foi feita com justiça e equidade!
E o astucioso Beremiz o Homem que Calculava tomou logo posse de um dos mais belos "jamales" do grupo e disse-me, entregando-me pela rédea o animal que me pertencia:
- Poderás agora, meu amigo, continuar a viajem no teu camelo
manso e seguro!
Tenho outro, especialmente para mim!
E continuamos nossa jornada para Bagdá
(1) Caranvaçará Refúgio construído pelo
governo ou por pessoas piedosas à beira do caminho, para servir
de abrigo aos peregrinos. Espécie de rancho de grandes dimensões
em que se acolhiam as caravanas.
(2) Jamal Uma das muitas denominações que os árabes
dão ao camelo.
Malba Tahan in "O Homen Que Calculava"
Devemos tentar verificar todos os dias as contas de luz e escuridão em nosso coração: os registros kármicos que estamos gravando no disco do espaço interior. Mais cedo ou mais tarde, esses programas serão ativados e o computador interno de nosso coração imprimirá uma resposta de sofrimento ou de felicidade. Temos que cuidar de nosso saldo bancário kármico como fez Gueshe Ben Kunguial. Quando jovem, ele foi um criminoso violento, mas percebeu depois que seu modo de vida lhe custava caro demais, trazendo-lhe muito sofrimento e nenhuma felicidade.
Gueshe Ben Kunguial ficou então muito interessado por sua conta bancária kármica e, por isso, mudou seu modo de vida. Todos os dias, ele somava quantas ações kármicas de luz e de escuridão tinha feito e registrava esse número em pilhas de pedras brancas e pretas. Quando contava mais pedras brancas, agradecia a si mesmo. Quando contava mais pedras pretas, impunha-se um castigo. As pessoas se perguntavam que tipo de autocura ele estava praticando, pois não o ouviam recitar nem tocar seu tambor ou seu sino.
A prática de autocura de Gueshe Ben Kunguial era estar constantemente desperto para o movimento de sua mente. Assim, quando qualquer tipo de veneno mental ou emoção negativa surgia, ele imediatamente os aniquilava com a arma de seu antídoto. Essa é uma verdadeira autocura. Gueshe Ben Kunguial era um monge budista tibetano do século XI. Entretanto, mesmo vivendo nos dias de hoje, se conseguirmos ter controle sobre o fluxo de nossa energia mental em meio à atribulada vida profissional e familiar, nossa prática de autocura será igual à dele.
Não precisamos necessariamente nos tornar monges ou ir para
uma caverna nas montanhas para controlarmos o saldo de nossa conta
kármica. Temos apenas que transformar
nossa mente e energia interna. E se estamos interessados em fazer
o melhor com a grande oportunidade que temos nesta vida, precisamos
saber:
O que não fazer (Ngel – o Caminho da Sombra) e O que
fazer (So – o Caminho da Luz)
... para sermos realmente felizes, saudáveis, bem-sucedidos,
ricos, livres e iluminados.
Original de Bel Cesar - Autora dos livros Viagem Interior ao Tibete,
Morrer não se improvisa
e O livro das Emoções pela editora Gaia
Extraída do Livro Autocura tântrica III de Lama Gangchen
Rinpoche – Ed.Gaia
Amor, paz, fraternidade, bondade, caridade, desapego. Esses são valores que Jesus Cristo transmitiu em três anos de pregações por Israel, registradas na Bíblia, o principal livro da religião cristã. Ainda hoje, nas páginas que descrevem seus feitos, milagres e lições aos seguidores, estão chaves para viver melhor e contribuir para tornar o mundo mais justo e humano, como Jesus sonhou. "Na Bíblia encontram-se luz e força para orientar a vida", afirma Tereza Cavalcanti, professora de introdução à sagrada escritura do departamento de teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). O livro sagrado está dividido em duas partes: o Antigo e o Novo Testamento. O Antigo Testamento descreve a história do povo de Israel, escolhido por Deus para realizar seu projeto: ser o Absoluto, para que as relações humanas se tornassem mais fraternas. O Novo Testamento conta a vida de Jesus Cristo, o carpinteiro da aldeia de Nazaré que se proclamou filho de Deus encarnado na Terra para dar continuidade ao projeto divino. Do Livro do Gênesis, que descreve a origem do mundo e da humanidade, ao Apocalipse de São João – escrito pelo apóstolo com a finalidade de dar esperança aos cristãos nos tempos de perseguição –, os textos abrangem um período que começa aproximadamente mil anos antes do nascimento de Jesus e termina por volta de 130 anos depois de sua morte. "A Bíblia é um compêndio de sabedoria, pois registra experiências humanas durante esse período que valem até hoje", continua a especialista.
Jesus não deixou nada escrito. Foram os apóstolos e discípulos os autores dos relatos sagrados. Os quatro evangelhos, de são João, são Mateus, são Marcos e são Lucas, descrevem, cada um a sua maneira, a trajetória de Jesus e seus ensinamentos. Muitos eram dados por meio de parábolas – narrações alegóricas que evocam a realidade por meio de comparação e se prestam a diversas interpretações. Nenhum texto bíblico tem valor rigorosamente histórico, já que todos os textos são baseados em relatos pessoais. João e Mateus pertenceram ao grupo dos 12 apóstolos, companheiros de Jesus, enquanto Marcos e Lucas foram apenas discípulos. Esse último nem conheceu Jesus, viveu na Síria e apoiou seu relato apenas em testemunhos. As Cartas de São Paulo, defensor da lei judaica que se converteu e se tornou um dos personagens mais importantes do cristianismo, foram escritas pelo menos 30 anos depois da morte de Jesus. Descubra oito episódios do Novo Testamento que ajudam você a trazer para o cotidiano os dons que Jesus pregava, interpretados pela professora Tereza Cavalcanti.
Acreditar no próprio potencial e desenvolver a fé para atingir metas que parecem distantes ou inalcançáveis é a mensagem do episódio em que Jesus caminha sobre a água. Ele está descrito nos evangelhos de são Mateus (capítulo 14), são Marcos (capítulo 6) e são João (capítulo 6).
Os discípulos estavam num barco, lutando contra a tempestade, quando Jesus apareceu andando sobre o lago, chamado mar da Galiléia, em Israel. Confundindo-o com um fantasma, os homens se apavoraram. Jesus então lhes disse: "Confiança! Sou eu, não tenham medo!" Pedro, parecendo duvidar, respondeu: "Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água". E Jesus disse: "Venha!" Pedro desceu da barca e andou na superfície, mas deixou-se tomar pelo medo e começou a afundar, pedindo socorro. Jesus o salvou, dizendo: "Homem fraco na fé, por que você duvidou?"
Mensagem: com a autoconfiança fortalecida, pode-se perseguir metas que à primeira vista parecem impossíveis. A fé proporciona alento para não se desanimar frente aos obstáculos. No episódio bíblico, Pedro já tinha conseguido a façanha, quando perdeu a fé e afundou. Confia-se na própria capacidade ao se centrar e entrar em contato com Deus e com as próprias emoções e necessidades. A oração e a meditação são formas de se interiorizar e acessar o potencial que existe dentro de cada um de nós.
A multiplicação dos pães e peixes ensina como é importante partilhar os recursos de que se dispõe, mesmo que possam parecer insuficientes. Esse episódio é considerado um dos mais importantes do Novo Testamento, já que é descrito nos quatro evangelhos (Mateus, capítulo 14; Marcos, capítulo 6; Lucas, capítulo 9; e João, capítulo 6). Em suas andanças, Jesus estava sempre cercado de gente, que o procurava em busca de cura ou ajuda. Numa delas, pacientemente atendeu os pobres e doentes e ficou pregando até tarde. Os apóstolos, cansados e famintos, queriam dispersar a multidão, mas Jesus lhes disse: "Vocês é que têm de lhes dar de comer". Espantados, os homens argumentaram que só tinham cinco pães e dois peixes. Jesus abençoou-os, partiu-os e pediu que os discípulos os distribuíssem. E assim alimentou 5 mil pessoas.
Mensagem: por menos que se tenha para dividir, os benefícios que resultam da ação podem ser maiores do que se espera. O texto mostra que Deus retribui os gestos generosos com prosperidade e abundância, pois os apóstolos acreditavam que a comida seria insuficiente, mas no final se surpreenderam, pois ainda recolheram 12 cestos de sobras. Tem-se dificuldade de acreditar e apostar em tudo que parece pequeno, frágil, não lucrativo. É preciso lembrar, porém, que o fogo de uma vela, por mais fraco que pareça, é capaz de acender outra, e mais outra, e mais outra, infinitamente.
O episódio do semeador, descrito no Evangelho de São Marcos, capítulo 4, aconselha a perseverar mesmo diante dos fracassos e das perdas, que fazem parte da vida. A parábola é um estímulo para descobrirmos a força que mora dentro de cada um de nós e da qual nem sempre temos consciência. Em uma de suas pregações, sentado num barco, Jesus contou aos seguidores a história de um homem que saiu para semear. Parte das sementes caiu e foi comida pelos passarinhos. Outra porção delas foi parar num lugar pedregoso, onde havia pouca terra – chegou a brotar, mas logo secou. Um terceiro conjunto de sementes, em meio aos espinhos, foi sufocado. A última parte, porém, depositada em terra fértil, brotou, cresceu e deu frutos. "O reino de Deus é como um homem que espalha a semente na terra", disse Jesus.
Mensagem: Jesus associou a palavra de Deus às sementes que os homens iriam acolher de diferentes formas. E alertou também que, como toda semente contém o necessário para brotar, crescer e se transformar numa árvore, o ser humano tem dentro de si a força para superar as dificuldades. A parábola é um estímulo ao recomeço. Se, em tentativas frustradas, a semente dos desejos caiu nas pedras ou nos espinhos, no final a terra fértil a acolherá e fará germinar. A força divina faz prosperar todo gesto em harmonia com toda a humanidade e com o planeta.
Nenhum homem pode julgar e condenar, pois ninguém está livre de pecado. Foi o que Jesus mostrou no episódio da adúltera, descrito no Evangelho de São João, capítulo 8. Jesus dava seus ensinamentos sentado no chão quando chegou um grupo de doutores da lei (especialistas em direito e intérpretes das escrituras) e fariseus (membros de uma seita judaica que defendia o cumprimento rigoroso das leis sagradas) trazendo uma mulher que havia sido flagrada em adultério. Eles perguntam a Jesus se ela deveria ser apedrejada – esse era o castigo infligido a elas, na época. "Quem de vocês não tiver pecado atire a primeira pedra", responde Jesus, impassível. Sua reação fez com que cada um desviasse o olhar da mulher e o dirigisse às próprias atitudes. Os acusadores foram embora, um por um, deixando a mulher sozinha com Jesus.
Mensagem: é preciso evitar os julgamentos precipitados ou insensatos, ainda mais sob influência de outras pessoas ou do grupo social. O primeiro passo é se desarmar interiormente e evitar reagir com a rapidez com que se é cobrado – na passagem bíblica, os homens interpelam Jesus duas vezes antes que ele responda. Fundamental também é se despir dos preconceitos e das opiniões formadas e desenvolver a capacidade de julgamento, pessoal e imparcial. Ouvir o que diz o coração impede que se tome para si os valores dos outros.
Em um retiro de 40 dias no deserto, Jesus foi tentado três vezes, conforme o Evangelho de São Lucas, capítulo 4. Cada tentação representou uma forma de poder – o político, o econômico e o religioso. Os mesmos que muitas vezes se é tentado a usar, corrompendo e manipulando pessoas e situações. Em jejum, morto de fome, Jesus foi desafiado pelo demônio a transformar uma pedra em pão, provando ser filho de Deus. E respondeu: "Está escrito, nem só de pão vive o homem". O diabo então levou Jesus para o alto da montanha e ofereceu a ele todos os reinos da Terra, com a condição de que se prostrasse a seus pés. Jesus se recusou: "Está escrito, adorarás ao senhor teu Deus e só a Ele prestará culto". Finalmente, Satanás o conduziu à parte mais alta do templo, em Jerusalém, e o incitou a se atirar, garantindo que seria salvo por anjos de Deus antes de cair. Jesus mais uma vez resistiu: "Não tentarás ao Senhor teu Deus". O Diabo, ao ver esgotadas suas formas de persuasão, foi embora.
Mensagem: é preciso resistir à tentação de tirar proveito de uma situação usando a autoridade, a posição hierárquica, o dinheiro ou a capacidade de persuasão com fins ilícitos ou que possam prejudicar outras pessoas. Chantagem e corrupção são exemplos disso. Deve-se ficar atento para não ceder a valores fúteis e egoístas, desconectados das verdades pessoais e do bem-estar coletivo.
O famoso Sermão da Montanha, em que Jesus discursa à multidão que o segue, é um dos textos mais ricos em ensinamentos do Novo Testamento, como descreve o Evangelho de São Mateus, capítulo 6. Entre as muitas passagens em que Jesus proclama que os pobres, puros, mansos e perseguidos serão recompensados no céu, ele encoraja a desfrutar a vida, em vez de se preocupar com o acúmulo de bens materiais, e aprender a contemplar a natureza. Jesus disse: "Olhai as aves do céu: elas não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros e, no entanto, o vosso Pai celeste as alimenta. (...) Olhai os lírios do campo. (...) Eu vos asseguro que nem Salomão em todo seu esplendor se vestiu como um deles". Com essas palavras, assegurou ao povo que não se preocupasse com o que comer ou vestir e colocasse o futuro nas mãos de Deus. "Em primeiro lugar busquem o reino de Deus e sua justiça, e Deus dará a vocês, em acréscimo, todas essas coisas."
Mensagem: ao convidar os fiéis a seguir o exemplo dos pássaros e das flores, Jesus recomenda que aprendam com eles a não se preocupar com o amanhã, pois Deus sabe das necessidades de cada um e proporciona todo o necessário para viver. E alerta para que não se criem falsas necessidades, que consomem tempo e recursos, escravizam e obrigam a antecipar o futuro, impedindo que se viva o presente em toda a plenitude.
Em seus gestos e palavras, Jesus ensinou a importância de oferecer apoio e conforto sem fazer julgamentos ou juízos de valor sobre quem merece ou não ser ajudado. Dedicou seus anos de pregação a ouvir e atender os pobres, loucos, deficientes físicos e prostitutas, defendendo-os das acusações dos que se julgavam puros, perfeitos ou donos da verdade. Jesus não escolheu os marginalizados porque eram bons, mas porque "precisavam de médico", como diz o Evangelho de São Mateus, capítulo 9. Jesus ofereceu a vida eterna a um dos ladrões crucificados a seu lado só por vê-lo sofrendo, e sua compaixão repercutiu positivamente no coração de alguém considerado marginal. Respondendo ao outro criminoso que insultava Jesus, o ladrão perdoado disse: "Não temes a Deus nem sequer sofrendo a mesma condenação? Para nós é justo porque estamos recebendo o que merecemos, mas ele não fez nada de mau". E acrescentou: "Jesus, lembra-te de mim quando vieres em teu reino". Jesus respondeu: "Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no paraíso" (Evangelho de São Lucas, capítulo 23).
Mensagem: ser solidário e compassivo pode significar apenas estar junto a quem sofre ou passa por dificuldades. Quase sempre entende-se caridade como oferta de dinheiro ou bens materiais, enquanto a qualquer momento podemos oferecer uma mão amiga ou uma palavra de conforto a quem precisa.
Jesus, ao restabelecer a saúde dos doentes, sempre procurava fazê-los colaborar e acreditar na própria capacidade de se curar. Muitas vezes, associava a salvação dos males à própria fé e força de vontade dos enfermos. O Evangelho de São Marcos descreve diversas curas milagrosas no capítulo 5. Numa delas, uma mulher que sofria de hemorragia acreditava que bastaria tocar na roupa de Jesus para ficar sã. E foi o que aconteceu. Jesus, então, perguntou quem o havia tocado. A mulher, medrosa e tremendo, caiu a seus pés e contou a verdade. Jesus então disse a ela: "Foi tua fé que te curou. Vá em paz e fique curada".
Mensagem: toda pessoa tem dentro de si a capacidade de curar o próprio corpo e as emoções ao manter a fé e a positividade. Ao longo de seus anos de pregação, Jesus várias vezes recuperou os sentidos perdidos de cegos e surdos e a capacidade de locomoção dos aleijados. Dessa forma, proporcionou aos inválidos a oportunidade de serem novamente reconhecidos dentro da sociedade, que, na época, considerava os doentes pecadores e indignos. Simbolicamente, os episódios mostram que abrir os sentidos é condição para se dar conta das dimensões espirituais que estão por trás das aparências.
"O real não está nem na saída nem na chegada: ele se impõe pra gente é no meio da travessia", escreveu Guimarães Rosa. Em outras palavras, o percurso é o destino. Seja num caminho bucólico e tranquilo, que só de olhar já nos deixa com vontade de andar por ele, seja numa estrada cheia. Criança, eu adorava as brincadeiras que meus pais, irmãos e primos inventavam - como contar os animais à beira da estrada, os carros de cada cor ou com um determinado algarismo no último número da placa. A viagem ficava mais divertida. E eu não ficava ansioso, infernizando meus pais, a cada 10 quilômetros, com a fatídica pergunta: "Está chegando?" É como diz o monge vietnamita Thich Nhat Hanh: quem anda atento ao caminho "chega" o tempo todo. Curtir o caminho sabendo aonde se quer chegar é um barato. O que dizer, então, de pegar a estrada sem destino? Pode parecer estranho, mas não há nada de errado em apenas aproveitar o momento. Uma viagem, desse tipo abre inúmeras possibilidades: descobrir lugares, conhecer a própria vontade. É bom poder pensar que não precisamos nos limitar aos caminhos preestabelecidos. Podemos escolher o próprio destino.Viajar é preciso. Basta escolher o caminho e fazer a própria estrada.
Gabriel Pillor Grossi
In Revista "Vida Simples" edição especial
Horizontes
Não paramos de reclamar.
Muitas vezes com razão: os impostos, o custo de vida, o desemprego,
a violência, a prolongada adolescência dos filhos, a súbita
falsidade de alguém em quem confiávamos tanto, a velhice
complicada dos pais, a pouca autoridade das autoridades, a nossa própria
indecisão.
As rápidas mudanças na sociedade, alguns ainda tentando
arrastar o cadáver dos valores que precisam ser mudados, outros
tentando impor a anarquia quando a gente devia era renovar, não
bagunçar.
Pensei que uma das coisas que andam ficando raras é a alegria,
e comentei isso. Alguém arqueou uma sobrancelha: Alegria? A
palavra está até com cheiro de mofo... Tanta coisa grave
acontecendo, tanta tragédia, e você fala em alegria?
Pois comecei a me entusiasmar com a idéia, e provocativamente
fui contando nos dedos os motivos que deveriam levar a que o grupo
se alegrasse: a lareira crepitava na noite fria, uma amizade generosa
circulava entre nós, três bebês dormiam ali perto,
na sala ao lado, ouviam-se risadas e, apesar de sermos na pequena
roda mais ou menos calejados pelas perdas da vida, tínhamos
os nossos ganhos em experiência, amores, conhecimento, esperança.
Nenhum de nós desistira da jornada. Nenhum de nós era
um malfeitor, um ser humano desprezível, ao contrário:
a gente estava na luta, tentando ser decente, tentando superar os
próprios limites.
Havia marcas da passagem do tempo em todos os rostos: ninguém
se fizera deformar pelo fanatismo da juventude eterna, mas todos se
gostavam o suficiente para não se deixar cair feito um trapo
velho.
Olhei em torno e gostei de nós: ali se viam belos cabelos pintados
e belos cabelos brancos, rostos interessantes que tinham visto muita
coisa, bocas marcadas que haviam dado muitas risadas e pronunciado
palavras amorosas, mas também falado coisas duras, silenciado
quem sabe ternuras difíceis, ocultado queixas que deveriam
ter sido lançadas. Mãos que tinham segurado bebês,
conduzido crianças, confortado adolescentes, cuidado de velhos
doentes, fechado pálpebras, dirigido automóveis, segurado
ombros, fendido ondas, tapado o rosto em pranto solitário ?
quantas vezes?
Éramos tão humanos, tão desvalidos e tão
guerreiros, o pequeno grupo de amigos diante de uma lareira na noite
fria, como centenas, milhares de outros, homens, mulheres, crianças,
entre os dois mistérios do nascer e do morrer.
Repeti a minha pequena heresia: ? Eu acho que uma das coisas que andam
faltando, além de emprego, decência e tanta coisa mais,
é alegria. A gente se diverte pouco. Andamos com pouco bom
humor.
Erico Verissimo, velho amigo amado, uma de minhas mais duras perdas,
me disse quando eu era muito jovem: "Lya, em certos momentos
o que nos salva nem é o amor, é o humor".
Um riso bom ou um sorriso terno em meio a toda a crueldade, falsidade,
hipocrisia, violência de acusações abjetas, de
calúnias vis, de corrupção escandalosa, de desagregação
familiar melancólica, de mentira secreta e venenosa podem nos
confortar e devolver a esperança. "
Lya Luft - escritora
Se
Encontrando No Caminho...
Vai num grupo… mas no hotel e em algumas atividades está
sozinha.
Uma tarde vê-se obrigada a atravessar sem companhia a cidade
desconhecida: dá os primeiros passos repetindo mentalmente
o roteiro, segura a mochila como se fosse a bússola de sua
alma.
Ao seu redor fragmentos de frases…que ela entende mais ou menos,
os cheiros e cores diferentes.
O sol incide sobre todas as coisas de uma forma nova. Então
é tomada de euforia: está …num caminho desconhecido,
consegue andar e orientar-se - e não sente medo. É uma
alegria inquietante para ela, que nunca imaginou sentir-se tão
bem e contente longe da casa e da família. Antes, isso lhe
pareceria uma traição. Agora, caminhando no chão
do imprevisível, começa a dizer em voz alta: “Eu
sou uma pessoa! Eu sou uma pessoa!". E, sentindo-se ridícula,
ri de si mesma, lágrimas nos olhos, como se tivesse acabado
de nascer. Está só. Está livre, está completa,
e, nesse instante, sem nenhuma culpa. É capaz - sabe disso
agora. Nada a teria impedido de descobrir isso antes, não poderia
acusar ninguém de estar querendo podar ou abafar sua personalidade.
Eram amarras consentidas que a prendiam, muitas auto-impostas, um
confortável papel que aceitara e assumira porque assim esperavam
dela. Mas ali, naquela breve caminhada, libertara em si uma pequena
alma transgressora, ainda que de limites tão ínfimos
que alguns até achariam graça.
Nesse dia compreendeu que amadurecera. Entrou numa joalheria e comprou
um anel, um aro muito simples, que nunca mais tirou do dedo: sua aliança
consigo mesma e com a sua verdade.
Amadurecer passou a ser retirar as máscaras e ver no espelho
o verdadeiro eu - onde se lia uma severa contabilidade de gastos e
lucros, saldos nem sempre tranqüilizadores, pouca ousadia.
Quanto de amargura, quanto de bom humor tinha sobrado, quanta capacidade
e fervor para se renovar antes que a resignação encobrisse
tudo?
Percebeu que não importava tanto o que havia lhe acontecido
naqueles quarenta anos, mas o que ela estava fazendo com o que eventualmente
acontecera.
Era uma oportunidade assustadora e maravilhosa: amadurecer não
significava estagnar, mas reafirmar - ou reinventar - cada dia aquilo
que mesmo inconscientemente ela se propunha como o sentido, o rumo
e o tom de sua vida.
Precisara chegar àquela cidade distante para fazer essa descoberta.
Levara quarenta anos para se encontrar como pessoa: talvez levasse
mais quarenta para achar que entendera todos os significados disso.
Mas aí precisaria de outros quarenta para enfim ver que nada
tem explicação, e que o interessante na vida não
são as respostas: são os enigmas.
Livre adaptação de “Numa cidade distante”
em “Pensar é Transgredir” de Lya Luft.
Apenas
uma palavra
Em seu belo livro O Velho e o Mar (Bertrand Brasil), Ernest Hemingway
relata a história de Santiago, um velho pescador cubano que
trava contato com dois infernos. O primeiro é a ausência
de sorte, que o levou a ficar 84 dias sem pescar um peixe sequer.
A fase ruim levou o pescador Santiago a conhecer a penúria
e sua tristeza ficou maior quando perdeu seu auxiliar, um garoto que
não só o ajudava como o admirava, mas que se transferiu
para um barco de melhores resultados. Santiago, porém, não
é homem de lamúrias, muito menos de desistências.
Parte sozinho para alto-mar, sentindo falta do garoto, mas acompanhado
por uma forte certeza de que "hoje será um grande dia
para a pesca de marlins".
O segundo inferno ele conhece após ter visitado o céu.
Fisga um peixe enorme, com o qual trava uma batalha de três
dias. Consegue vencê-lo, trazê-lo até o pequeno
barco e amarrá-lo ao costado - pois dentro não cabia,
maior que o próprio barco ele era. Santiago, só contentamento,
passa a viver o novo martírio. Tubarões, atraídos
pelo sangue do peixe morto, começam a aparecer e a arrancar-lhe
pedaços. Continua a lutar com as forças e as ferramentas
que lhe restam. Tudo em vão, pois os tubarões não
param de chegar. Quando finalmente atinge a praia, apenas arrasta
um enorme esqueleto inútil.
A cena que segue é repleta de tristeza - c enorme beleza. Seu
amigo, o garoto aprendiz, o procura, declarando sua preocupação
com o desaparecimento do mestre por três dias, e lhe diz que
vai voltar a pescar com ele, pois quer aprender mais. Santiago, desolado,
diz: "Não é mais possível, a sorte me abandonou
por
completo". Ao que o garoto retruca: "Não se preocupe,
eu levarei a sorte comigo". Esse argumento foi o suficiente para
o "velho" se recuperar.
A desesperança dá lugar ao ânimo para seguir em
frente. "Precisamos de uma nova lança. Podemos fazê-la
com qualquer chapa de aço de um velho Ford." Rapidamente
Santiago renasce, lembrando que ainda haveria pelo menos três
dias de brisa forte, e que eles deveriam ser aproveitados. A sorte
voltaria, trazida pela brisa da esperança. Exatamente como
nossa vida deve ser; sempre pra frente...
“UMA COISA DE CADA VEZ”
Eugenio Mussak – pag: 89 - Colaboração: Edson
Campos Porto
SIMPLICIDADE VOLUNTÁRIA