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Biosferas
Suplementos
de Biologia – Professor Túlio Vieira Bastos
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DESENVOLVIMENTO
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BÁSICOS DE ECOLOGIA
Necessidade
de uma abordagem Transdisciplinar
nas Questões Ambientais
A
questão ambiental tem sido um tema em destaque em
todos os meios. É inegável a importância,
a evidência, a preocupação e a urgência
desse assunto. Afinal, a existência e o significado
do ser humano, da sociedade e da própria civilização
estão profundamente associados às questões
ambientais no seu sentido mais amplo, profundo e complexo.
Segundo CAPRA (2003)(1), "à medida que nosso
século se desdobra, um dos nossos maiores desafios
é o de construir e manter comunidades sustentáveis",
embora precisamos de uma definição operacional
de sustentabilidade ecológica, que reconheça
a necessidade de se planejar uma comunidade humana sustentável
de modo que os estilos de vida, negócios, atividade
econômica, estruturas físicas e tecnologias
não interfiram na capacidade da natureza em manter
a vida.
Ao longo do tempo, nos sucessivos períodos históricos,
a humanidade sempre se relacionou e se serviu, para todos
os fins, do ambiente no qual estava inserida. E esse processo
foi se tornando cada vez mais intenso, à medida que
a humanidade foi alcançando um progresso social,
científico e tecnológico, e porque não
dizer, imprevisível. A visão do meio ambiente
como fonte inesgotável de recursos a serem explorados
de forma cada vez mais crescente levou a uma espoliação
e degradação dos recursos naturais e a alterações
profundas do equilíbrio ambiental em várias
partes do planeta, com conseqüências incalculáveis,
desde os tempos passados até a atualidade, e com
perspectivas nada animadoras. Uma série de pesquisadores
vem alertando para este problema, como David Hutchison,
que descreve essa mesma perspectiva:
A noção de que a natureza é um recurso
explorável e consumível está tão
profundamente enraizada na cultura industrial moderna
que talvez seja difícil imaginar uma reIação
alternativa entre os seres humanos e o equilíbrio
da comunidade da Terra (HUTCHISON, 2000, P. 32).
(1) CAPRA, Fritjof. Alfabetização Ecológica:
O Desafio para a Educação do Século
XXI (p. 19). In: TRIGUEIRO, André. Meio Ambiente
no Século XXI. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.
Hoje, mais do que nunca, percebe-se com muita facilidade
a insustentabilidade desse modelo de sociedade diante
da complexidade ambiental do planeta, que corre o risco
de chegar a um ponto de não retorno, face aos profundos
estragos ocorridos historicamente devido a todo esse processo
acima descrito. De acordo com as palavras de Leonardo
Boff, "[...] nas últimas décadas o
homem tem construído o princípio da autodestruição".(2)
A importância de se desenvolver uma consciência
a respeito da crise da modernidade, que apresenta reflexos
extremamente notáveis, principalmente relacionados
às questões ambientais, é eminente:
O planeja Terra vive um período de intensas transformações
técnico-científicas, em contrapartida das
quais engendram-se fenômenos de desequilíbrios
ecológicos que, se não forem remediados,
no limite, ameaçam a implantação
da vida em sua superficie (GUATTARI, 2000, p.7).
A ciência, por sua vez, foi sofrendo um processo
crescente de fragmentação, o que gerou o
desenvolvimento de posturas isoladas, a tal ponto de criar
modelos que passaram a normatizar estudos e aplicações,
teóricas e práticas, sem considerar a complexidade
do todo, mas sim as partes isoladas, descontextualizadas
e reducionistas, que por si só, não permitem
uma visão real das mais diversas abordagens. Segundo
SOUZA (2000, p.19), "um dos problemas mais graves
relacionado às questões ambientais é
a ação desviacionista das múltiplas
especialidades envolvidas no processo". Essa postura,
que é multifacetada, tem sido o fio condutor de
diversas crises da atual modernidade, nos seus mais variados
sentidos. Ainda segundo SOUZA (2000, p. 20), "não
se percebe o valor da complementaridade de conhecimentos",
O que se percebe são crises conjunturais, estruturais
e éticas nas mais diversas áreas, como a
política, a educação, a economia,
as relações internacionais, as ciências
sociais, humanas e exatas, a filosofia, etc., com prejuízos
incalculáveis para o desenvolvimento da humanidade,
gerando novas crises, que se desfazem e refazem continuamente,
num ciclo vicioso, preciso, rígido e interminável.
Assim, a ciência que deveria prover a humanidade
com avanços e soluções para os mais
diversos problemas e desafios, tornou-se refém
de si mesma, fechada, petrificada, encastelada, elitista,
dogmática, inflexível e incapaz de perceber
a necessidade de mudanças, e o diferente e inovador
como possibilidade de algo complementar.
(2) BOFF, Leonardo. Ecologia e Espiritualidade (p.35).
In: TRIGUEIRO, André. Meio Ambiente no Século
XXI. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.
Com essa postura, arrogante e conservadora, a ciência
tornou-se um instrumento de forças retrogradas,
capitalistas e neoliberais da modernidade para a reprodução
desse sistema. Tendo em foco a objetividade, a distância
construída entre sujeito e objeto, vê a própria
natureza, a cultura e a humanidade como objetos de uso,
consumo e descarte, criando necessidades desnecessárias,
com uma concepção de autodestruição
inovadora, tendo ai conseqüências desastrosas
diretas e cada vez mais graves. Mas a falência desse
modelo já é inquestionável e incontestável,
ainda que existam resistências fortíssimas
por parte de muitos segmentos da ciência, da política,
da economia e da intelectualidade, que asseguram a ele
uma sobrevida, que só tende a contribuir com o
agravamento desse quadro. Como foi escrito sabiamente
pela Ministra do Meio Ambiente Marina Silva, "necessitamos,
em primeiro lugar, comunicar nossas idéias em linguagem
mais simples e direta, capaz de envolver mais gente".(3)
(...) estamos tomados por uma espécie de consumismo
ideológico, nos alimentando dos conceitos, das idéias,
como fins em si. Um acúmulo de conhecimento que acaba
circulando muito pouco pela sociedade. Parece faltar tempo
ou paciência para processar conceitos ainda não
realizados, internalizá-los na vida. Eles são
substituídos velozmente, busca-se a mais recente
teoria, que por sua vez será cousumida, e por aí
vai (4)(SILVA, 2003).
Para superar este obstáculo, tem sido apresentado
um conjunto de alternativas, tendo a transdisciplinaridade
como um caminho e opção a serem desenvolvidos
e aplicados em seu bojo, em muitas áreas, e, em um
caso específico, na abordagem da questão ambiental.
(3) O trecho citado foi retirado do prefácio da obra:
TRIGUEIRO, André. Meio Ambiente no Século
XXI. Rio de Janeiro: Sextante, 2003. p.9.
(4) Idem.
A transdisciplinaridade implica a reconstrução
do saber, que significa a reconstrução do
próprio homem. Relaciona-se à atitude do sujeito
do saber diante do mundo, diante daquilo que ele próprio
busca conhecer, baseado na "reconsideração"
de valores, princípio e normas de natureza ética.
Está focada em uma reconstrução do
pensamento, em parte fundamentada na idéia de que
todos os fenômenos existem interligados uns com os
outros e não podem ser completamente entendidos e
compreendidos, exceto em relação uns com os
outros. Tal atitude é projetada para os exercícios
de ensino e pesquisa, assim como para todas as práticas
relacionadas ao saber. A leitura transdisciplinar pressupõe
a formação do sujeito em âmbito geral.
De acordo com TRIGUEIRO (2003):
A expanso da consciência ambientai se dá na
exata proporção em que percebemos meio ambiente
como algo que começa dentro de cada um de nós,
alcançando tudo que nos cerca e as relaç&s
que estabelecemos com o universo.
Ter uma visão sistêmica, holística e
complexa, que seja capaz de superar a fragmentação
dos conhecimentos, sua hierarquização(5) e
verticalização unidirecional, com as fronteiras
artificiais das disciplinas, em função de
paradigmas(6) já um tanto superados, porque não
dão conta mais dos desafios que estão postos,
tornou-se um desafio, mas acima de tudo, uma necessidade
imperativa, muito particularmente para crise ecológica
do mundo moderno. A professora Cleusa Peralta reflete sobre
essa necessidade:
Um novo paradigma, fruto de uma investigação
maior que transversalize todos os campos do conhecimento,
faz-se necessário, para que uma nova ordem mundial,
menos fragmentária, menos hierárquica, mais
justa e mais integradora dos saberes, possa emergir. [...]
Esse caminho abriria espaço para a autonomia, para
o aprendizado autoconstruído, retornando, enfim,
à teia da complexidade, na qual não há
hierarquia entre sujeitos e objetos, entre observadores
e observados, entre seres humanos e natureza (PERALTA, 2002,
p.lO8).
Assim, sem correr o risco de conceber à transdisciplinaridade
a missão redentora de solucionar os problemas relacionados
ao meio ambiente, se faz necessário buscar novos
consensos coletivos, vivos e ativos, considerando a complexidade
dos contextos político, social, cultural, econômico,
científico, histórico, ambiental, estético
e ético, capazes de gerar outras visões de
mundo, que sejam anunciadoras e integradoras de perspectivas
transformadoras. Ela precisa ser construída, passo
a passo, superando as resistências conservadoras,
os limites duríssimos das disciplinas fechadas em
si mesmas, o acomodamento e o despreparo dos agentes envolvidos.
(5) O termo utilizado no sentido de dividir em categorias,
(6) Segundo VASCONCELLOS (2003), "paradigma tem sido
amplamente usado para se referir à forma como percebemos
e atuamos no mundo, ou seja, às nossas regras de
ver o mundo".
Recentemente, no Fórum Social Mundial, realizado
em Porto Alegre, o sociólogo português Boaventura
de Souza Santos afirmou, em seu discurso que "todos
nós queremos a globalização, sim! Mas
a globalização que queremos é a dos
saberes: queremos direitos iguais para o acesso ao saber,
democrático, não hierarquizado, livre da exclusão".
Referiu- se ainda, à necessidade de o conhecimento
ser redemocratizado a partir do exercício da unidade
e da diversidade(7).
Mas essa não é uma missão fácil,
simples e imediata. Não existem métodos e
nem fórmulas prontas, acabadas e definitivas para
a introdução da prática da transdisciplinaridade
como um novo modelo. Ela ainda se encontra em gestação,
estando em processo de formação e de construção
por segmentos ainda isolados e minoritários.
Sendo assim, pensar a abordagem da questão ambiental
sob outros olhares, tendo a transdisciplinaridade como base,
instrumento, resistência e perspectiva de transformação,
já é bastante significante, e sinaliza como
um bom começo diante da obscuridade do momento atual.
(7) Citado por: PERALTA, Cleusa H. G. Experimentos Educacionais:
Eventos Humorísticos Transdisciplinares em Educação
Ambiental. p.109. In: RUSCHEINSKY, Aloísio. Educação
Ambiental: Abordagens Múltiplas. Porto Alegre: Artmed
Editora, 2002,
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GUATTARI, Félix. As Três Ecologias. 10. ed.
Campinas, SP: Papirus, 2000. p. 7.
HUTCHISON, David. Educação Ecológica:
Idéias sobre Consciência Ambiental. Porto Alegre:
Artes Médicas Sul, 2000.
PERALTA, Cleusa H. G. Experimentos Educacionais: Eventos
Humorísticos
Transdisciplinares em Educação Ambiental.
P. 108. In: RUSCHEINSKY, Aloísio.
Educação Ambiental: Abordagens Múltiplas.
Porto Alegre: Artmed Editora, 2002.
RUSCHEINSKY, Aloísio. Educação Ambiental:
Abordagens Múltiplas. Porto Alegre:
Artes Médicas Sul, 2002.
SOUZA, Nelson Mello e. Educação Ambiental:
Dilemas da Prática Contemporânea Rio de Janeiro:
Thex, 2000.
TRIGUEIRO, André. Meio Ambiente no Século
XXI. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.
VASCONCELLOS, Maria José Esteves de. Pensamento Sistêmico:
O Novo Paradigma da Ciência Campinas, SP: Papirus,
2002. p. 29.
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