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atualizado em 22/06/09









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Relato do Caminho da Luz (Daniel Casa Nova)

Decidi percorrer o Caminho da Luz por entender que esta seria uma boa oportunidade de iniciar-me no trekking. Ao assistir a uma reportagem na TV Senado sobre a centenária rota, fiquei maravilhado! Adquiri os equipamentos necessários, escolhi o período do ano (julho) com menos chuvas, marquei as férias e dediquei meu primeiro dia para seguir do Rio de Janeiro, onde moro, até Alto Caparaó, onde deixei meu carro. De lá, peguei o ônibus até Alto Jequitibá e, após duas horas de espera, embarquei em outro coletivo, até Carangola. Na chegada à cidade, pedi informações a um taxista que, por coincidência, havia deixado outro caminhante na cidade de Tombos, na tarde daquele mesmo dia. Interessado na possibilidade de ter um companheiro de jornada, pedi ao taxista que me levasse até Tombos, e lá, no Hotel Serpa, conheci Hermes, que foi meu grande companheiro durante o trajeto, que iniciamos no dia seguinte.

Iniciamos nosso percurso indo até a Cachoeira de Tombos, onde os caminhantes descem uma pequena ribanceira até sua base, que é o Marco Zero do Caminho da Luz. Ali existe uma pequena usina hidrelétrica, operada pela Ampla, que envia energia para o Rio de Janeiro. Após tirarmos fotos do local, subimos de volta para a cidade, pegamos nossas mochilas no hotel e seguimos pelo Caminho, atravessando toda a cidade.

O primeiro dia é o mais difícil de todos, em termos de esforço físico. Se você completá-lo, fique seguro de que nenhum dos outros dias será tão duro. Dignos de menção nesta primeira parte do trajeto são a secular Fazenda Oliveira, a Mata do Banco,
a Casa de Dona Francisca e a Gruta da Pedra Santa, que certamente tem algo de misterioso. Não só o autofoco de minha câmera ficou doido por lá (foi o local onde bati mais fotos desfocadas), mas após analisar as fotos que tirei no local mais de perto, descobri várias “bolas” de luz nas mesmas. Grãos de poeira refletindo a luz do flash? Talvez...

A hospedagem ao fim deste primeiro dia, na casa de Dona Maria de Lourdes, foi fantástica, com deliciosa comida acompanhada de muita atenção e carinho, muito diferente de um hotel. Ela e seu marido Juarez receberam Hermes e eu como se fôssemos seus parentes. Boas lembranças...

No segundo dia, seguimos para Pedra Dourada. A subida mais forte neste trecho é a do Alto do Lombo do Burro. Vale a pena o esforço para ir até a Água Santa (2km de ida e 2 de volta), que brota da pedra, é fantástica. Na entrada de Pedra Dourada há uma cachoeira, menor do que a “Surpresa”, mas ainda assim muito bonita. Na chegada à cidade fomos recebidos por Dona Ana, que é uma pessoa com uma linda história de vida (vide relato, aqui, da Flávia, muito detalhado). O que mais me surpreendeu, na pensão de Dona Ana, foi o fato de estarmos em uma casa humilde e antiga, mas cuja porta dos fundos dá para um prédio de três andares, com capacidade para 60 pessoas! No amanhecer do terceiro dia, Hermes e eu saímos sob as bençãos de Dona Ana, que nunca deixa de ler trechos da Bíblia para os caminhantes que hospeda.

Início do terceiro dia, e seguimos para Faria Lemos, passando pela Pedra do Lagarto (que é menor do que eu pensava, mas ainda assim, impressionante e misteriosa), onde subi e fiz uma prece, pensando no antigo xamã que nela um dia cantou. Na metade do trajeto, chegamos à cachoeira Surpresa, que é uma visão magnífica! O Caminho passa ao largo desta linda queda d’água, o que torna possível observá-la de vários ângulos - um verdadeiro espetáculo da natureza – fazendo com que uma parada naquele local seja quase obrigatória.

O terceiro dia é bem tranquilo (talvez o que demande menos esforço físico). Na chegada a Faria Lemos, o caminhante atravessa uma estrada e segue por três quilômetros de asfalto (o único trecho asfaltado do Caminho, fora o interior das cidades). Infelizmente, ao final deste dia, Hermes teve que abandonar a caminhada, pois sentiu uma antiga contusão no pé. Ficamos hospedados no Hotel Ventura, que tem sem dúvida o melhor banho quente de todo o Caminho da Luz.

Faria Lemos é a cidade mais pitoresca de todas as que visitei durante esta caminhada: amistosa, bonita, bem arborizada... Fiquei com vontade de visitá-la em outra oportunidade, com mais calma.

Na manhã do quarto dia, Hermes e eu nos despedimos emocionados, e após sua partida, parti em direção àquela que é a maior cidade ao longo da rota iluminada; Carangola. Fui no meu ritmo, e aproveitei bastante o dia. Passei pela fazenda que pertenceu ao outrora temido Coronel Novaes, e no meio do trecho conquistei a Serra dos Cristais. Digo “conquistei”, pois é uma subida forte. Mas com tranquilidade e perseverança, cheguei a seu topo e, satisfeito, iniciei a descida.

Na chegada a Carangola, segui para o Hotel Gran Palace, onde o grande Albino Neves, uma pessoa iluminada, foi cumprimentar-me. Nem posso dizer o quão surpreso fiquei, ao encontrar-me, frente a frente, com o criador desta linda rota de peregrinação. Dividimos uma pizza, e no dia seguinte (que tirei para descanso), visitei sua casa duas vezes e passeamos de bicicleta pela cidade. Ele foi incrivelmente hospitaleiro.

Na manhã do sexto dia, segui com uma dupla de caminhantes até Espera Feliz, passando por Caiana, passando pelo que é, sem sombra de dúvida, o trecho mais belo do Caminho da Luz. A ascensão até a Serra de Caiana é majestosa, para dizer o mínimo. Foi uma grande emoção percorrer o mesmo trajeto onde, até alguns anos atrás, existiam trilhos, percorridos por possantes locomotivas. Os lindos paredões, enfeitados com bromélias, além do túnel de pedra, das estações abandonadas e a bem preservada mata tornam aquele trecho o mais bonito de toda a rota.

Espera Feliz é a cidade onde os sinais de riqueza encontram-se mais evidentes, dentre todas as visitadas. Carros novos, grandes lojas, muita ostentação. A impressão que tive é de que o PIB de Espera Feliz deve equivaler ao de Carangola, cidade que tem o dobro de habitantes. Infelizmente, neste dia, torci o joelho esquerdo, o que me levou a considerar abandonar minha peregrinação.

No dia seguinte, com o empréstimo de um protetor patelar, aceitei o desafio de, pelo menos, tentar chegar a Alto Caparaó. Não queria desistir no último dia, e sabia que demoraria dias para recuperar-me daquela lesão. O protetor ajudou muito, aliviando a dor. Neste último dia, a estrada é basicamente plana, com poucas e curtas subidas, muita poeira e veículos transitando. É possível perceber os sinais de minério na terra, e em todo lugar que se passa.

A chegada a Alto Caparaó, após passar por Caparaó (que os locais chamam, respectivamente, de “Caparaó do Alto” e “Caparaó de Baixo”), fui tomado de grande emoção ao avistar a grande cordilheira. Foi uma sensação de dever cumprido, principalmente quando completei minha credencial e recebi, com orgulho, o certificado de Caminhante da Luz. Mesmo sabendo que a lesão em meu joelho não me permitiria ascender ao Pico da Bandeira, no dia seguinte, senti que havia completado o objetivo com o qual havia me comprometido: concluir o Caminho. A subida ao Pico acontecerá, futuramente. O mais importante foi reconhecer meus limites, e superá-los, até onde pude.

Neste dia final, hospedei-me na Pousada Querência, onde o proprietário Rogério, sua esposa Solange e suas filhas Jade e Lilás me receberam com uma energia muito especial e positiva (muita hospitalidade, é uma família única e que imprime sua marca na administração daquele estabelecimento). Agradeço a eles pela fantástica receptividade e fico feliz em contar com sua amizade. Futuramente, não só pretendo ascender ao Pico da Bandeira, mas também fazer um dos roteiros de trekking que Rogério promove, dentro do Parque Nacional de Caparaó.

Finalizando meu relato: separei as dicas, para não tornar o texto muito longo. Você poderá encontrá-las aqui. Um grande abraço, e Paz e Luz.
Assinado: Daniel. danielbasico@hotmail.com


Marco Antonio

Resolvi fazer o Caminho da Luz de bike, de súbito. Certo dia comecei a pesquisar na internet alguns passeios para fazer com a minha bike... achei algumas coisas interessantes mas estava a procura de algo mais, além da prática de atividade física, pois havia passado, a um ano e meio, por um problema sério de saúde e estava precisando "acalmar a minha mente e coração". Decidi, então, fazer o Caminho de Santiago (Caminho Francês) de bike e comecei a minha preparação física intensa, com orientação de profissional de educação física.

Certo dia conversando com a minha esposa, ela me contou sobre o programa que passou na TV a respeito do Caminho da Luz, sendo que já havia olhado no site. Após conversar com o professor de educação física, achamos interessante fazer alguns percursos locais antes do grande Caminho de Santiago, foi quando resolvi fazer o Caminho da Luz. Preparei a minha bike numa semana e fui para Tombos na outra. Não organizei nada (sempre fui muito certinho na minha vida e queria algo diferente desta vez), apenas te liguei no dia anterior da viagem.

Comprei a passagem na hora do embarque na rodoviária e fui....sozinho, sem me preocupar se teria hotel pra ficar e coisas do gênero (estava carregando pouca bagagem - apenas uma mochila - mas tinha um saco de dormir "especial"). Chegando a Tombos fui muito bem recebido pela Rogéria (Hotel Serpa) e me instalei num quarto (dormi de janela aberta no nível da rua - coisa inimaginável na cidade do Rio de Janeiro). De manhã, tomei um café reforçado e arrumei a minha mochila na bike (preferi colocar no bagageiro da bike em vez de carregar nas costas - ficou bem melhor), e visitei a cachoeira de Tombos (pela estrada).

De lá segui o Caminho, visitando uma Fazenda em que o capataz (acho que o nome dele é Mathias) me deixou entrar e me deu água. Em certo momento, entre Tombos e Catuné, procurei a placa que indicaria o caminho dos bikers e infelizmente não estava mais no lugar (acredito que tenha caído)... resolvi, então, subir aquela famoso morro onde não existe praticamente caminho e as porteiras mal dão para passar uma pessoa... com a bike nas costas uma boa parte do tempo... FOI A DECISÃO MAIS ACERTADA QUE TOMEI NA MINHA VIAGEM (pode parecer estranho, mas aquela subida teve um sentido espiritual pra mim que eu não saberia expressar muito bem - é muito forte o que senti). Apesar do monitor cardíaco indicar sempre batimentos em torno de 170 na subida do morro, e após uma queda da bike, fui até a gruta e lá, desesperado por água, me saciei com uma bica... sentei dentro da gruta e fiquei olhando a imagem de N.Sra. de Lourdes e ouvindo as gotas d´água caindo, sem nenhuma pessoa ou barulho pra me incomodar. É incrível e inexplicável, mas saí dali tão carregado de energia e pronto para mais uma subida de morro, se tivesse.

Chequei em Catuné e fui recebido pela excepcional D. Neusa (que por óbvio, não estava me esperando - esse era o meu espírito da viagem - um pouco irresponsável, mas era este) e me recebeu de forma muito carinhosa. No dia seguinte fui em direção de Pedra Dourada, aonde conheci a famosa D. Ana (que, assim como a D. Neusa, não estava me esperando....) sendo que me recebeu da mesma forma, com muito carinho, como se fosse uma mãe acolhendo seu filho....MUITO BONITO. D. Ana me ofereceu almoço e falei com ela que seguiria viagem, até porque vinham três senhores caminhando e que já haviam reservado o seu quarto de hóspedes. Ela, então rezou e cantou pra mim (MUITO BONITO) e nos despedimos. Segui, neste mesmo dia, após o almoço, para Faria Lemos. No caminho a subido do Lombo do Burro é bem difícil e cansativa mas a vista e as cachoeiras no caminho compensam qualquer esforço.

Cheguei em Faria Lemos, após percorrer quase 60Km num dia, sentei na praça e tomei uma cerveja que caiu como uma luva depois de tanto esforço. Depois, foi jantar e descansar no Hotel Ventura. Dia seguinte, fui em direção a Carangola, visitando Fazendas e conhecendo a linda Serra dos Cristais. É uma vista muito legal e quando estava sentado descansando no alto da Serra, não é que o celular toca (único lugar que ele pegou realmente)... Confesso que naquele momento não atendi e desliguei o aparelho - queria realmente ficar quieto, sozinho, sem falar com ninguém. Quando cheguei em Carangola verifiquei a ligação e não era nada demais (trabalho que poderia aguardar).

Dia seguinte fui para Espera Feliz - dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo. Neste trecho merece registro a linda Serra de Caiana que percorri por Ernestina - lugar de subida "dura" mas fantástica, cheio de energia e lindo visual. A própria Cidade de Caiana é bem interessante - parece uma cidade fantasma durante o dia, com as janelas abertas das casas - sem preocupações com segurança. De Espera Feliz para Caparaó é muito tranqüilo, praticamente sem subidas e de Caparaó para Alto Caparaó algumas subidas e muitos cafezais, visualizando, de vez em quando, o Pico da Bandeira ao longe.

Em Alto Caparaó fiquei na pousada do Rui aonde fui recebido pela Sra. Rilza (esposa do Rui) - ela tinha acabado de fazer doce de leite que estava maravilhoso. Infelizmente, a subida ao Pico da Bandeira foi prejudicada pelo mau tempo, mas cheguei a Tronqueira e subi um pouco a pé depois até o Vale Encantado - é muito bonito - imagino no verão com as chuvas como devem ficar as cachoeiras!!! No dia seguinte, peguei um ônibus até Manhumirim e de lá peguei outro até o Rio de Janeiro, terminando, dessa forma, a minha jornada.

Todos me perguntam qual foi a coisa mais bonita que encontrei na viagem e respondo, sem pensar, que foram as pessoas que conheci no Caminho da Luz, pois parecem realmente iluminadas pela Luz que nos guia nesta caminhada (de bike, no meu caso) que muitas vezes é árdua mas muito mais prazerosa do que qualquer outra que já fiz. Digo a todos que vale muito a pena percorrer o Caminho da Luz, não só pela beleza natural (que é indiscutível), mas pelos ensinamentos que temos durante o percurso, tais como humildade, simplicidade, companheirismo e carinho, coisas que na vida louca que temos na Cidade grande muitas vezes nos esquecemos ou passamos por cima, vivendo uma vida automática, burocrática e algumas vezes enfadonha, esquecendo até de realmente viver e curtir a vida.

Algumas dicas, se me permitem (coisas que não fiz, mas acho que deveria - a vida é assim, quando somos novos - tenho 37 anos - achamos que nada pode acontecer conosco!!!): (i) não fazer o Caminho da Luz, ou qualquer outro Caminho, sozinho; (ii) se fizer sozinho, que avisem sempre a Cidade seguinte (lugar que irão pernoitar) para o caso de vc não chegar, seja lá porque motivo for, alguém possa lhe prestar socorro e ir a sua procura; (iii) sempre que passar por uma fonte de água encha a sua garrafa e se hidrate muito - passei alguns apertos quanto a falta de água, pois, por estar de bike, muitas vezes não queria parar para encher as garrafas - erro grosseiro que aprendi na "marra"; (iv) parar rapidamente para comer alguma coisa (aquelas barrinhas de cereais é uma boa pedida) - acho que, no máximo, paradas de 5 minutos - para por muito tempo vc perde o "pique"; (v) se for de bike, levar ferramentas, bomba de ar e câmara de ar para qualquer eventualidade no caminho; (vi) fazer uma boa revisão na bike antes de viajar; (vii) a bike deve ter suspensão dianteira e computador de bordo para controlar a distância percorrida; (viii) levar o mínimo possível de bagagem e dê preferência em carregar a mochila no bagageiro da bike e não nas costas (as subidas castigam!!!); e (ix) as companhias de ônibus cobram pela bike como excesso de bagagem - nada demais - por volta de R$5,00 e devem estar embaladas.

Me coloco a disposição, pelo e-mail ou telefone, de qualquer pessoa que tenha vontade de fazer o percurso de bike ou a pé para ajudar no que for preciso.
Agradeço a todos os que disponibilizaram o Caminho da Luz e que todos sejam abençoados por Deus e Nossa Senhora. Forte abraço a todos.

Marco Antonio Ferreira Webler
Tel. 55 21 25336183 / 87449250 / mwebler@weblerenatalizi.com.br


CAMINHO DA LUZ (Catarina Rüdiger)

O espírito peregrino nos faz caminhar e esta é uma agradável concepção de vida que é desenvolvida por muitas pessoas e é o que me levou, juntamente, com outros 4 amigos peregrinos, ao Caminho da Luz.

Este Caminho de 195 km está situado no Estado de Minas Gerais. Tem início na cidade de Tombos e está dividido em 7 etapas, passando pelas cidades de Catuné, Pedra Dourada, Faria Lemos, Carangola, Espera Feliz, Caparaó e Alto Caparaó. A última etapa é a marcante subida ao Pico da Bandeira, o 3o ponto mais alto do Brasil, com 2.890 m de altitude, a Montanha Sagrada, na Serra do Caparaó que faz parte do Parque Nacional do Caparaó e, neste ponto, pertence ao Estado do Espírito Santo.

Foi idealizado por Albino Neves, um peregrino que já trilhou Caminhos em várias partes do mundo. É todo sinalizado e a aceitação e simpatia do povo mineiro aos peregrinos é muito forte.

O peregrino do Caminho da Luz tem o privilégio de caminhar na bela paisagem de montanhas e num trajeto brilhante quando a luz do sol atinge a abundância de cristais, mica e outros minerais. Além da luz no Caminho convive-se com o canto dos pássaros, com a beleza das cachoeiras e dos campos, com o cotidiano mineiro, com o sol, chuva, poeira, lama, com o gado nos pastos e nos caminhos, com as pessoas, com a solidariedade...

Cada etapa tem sua beleza, mas chegar a um dos pontos mais altos do Brasil é uma grande emoção. É ter a oportunidade de muitas vezes agradecer a Deus por todos os Caminhos. Chegar ao cume com um grau de dificuldade grande, valeu a pena. É chegar, abrir os braços e vibrar com a chegada naquele visual de 360o de muitas montanhas, com destaque para o Pico dos Cristais que está próximo e tem 2.790 m de altitude.

Quem caminha encontra na essência da natureza a integração com o universo e cresce na espiritualidade e na convivência. A cada passo se absorve energia para diluir problemas e se reconhece a capacidade de construir, de vencer e de atingir objetivos. Para isso, não basta apenas caminhar, é necessário sentir o Caminho. Lembrando Fernando Pessoa, Navegar/Caminhar é preciso...

nov/2004


Rosa Assef

De volta à casa, não entrei só,mas com milhares de imagens e lembranças graças ao upgrade que se operou na minha mente nestes dias de caminhante. O Caminho da Luz para mim foi muito intenso, ora perdendo o fôlego diante da natureza deslumbrante, ora refletindo sobre a grande incognita que nos rodeia, aquela pergunta de onde viemos e para onde vamos. Foi tambem para mim volta às origens(sou do mato) e um momento de reflexão, pois é comum se ouvir dizer que o tempo passa, mas ali diante daquela natureza perpetua, passando por lugares onde muitos já passaram, em pedras que muitos já pisaram, e vão continuar passando, e pisando, e se emocionando, pude constatar que o tempo não passa, nos é que passamos por ele...eternos caminhantes que somos!

Ah, gosto muito de um poeta libanes - Nemé Kazan - que escreveu um poema que reflete bem esses sentimentos que vivi e gostaria de partilhá-lo com vocês. Deixo aqui o meu mais carinhoso agradecimento e um até breve! Rosa Assef


"Eu sou o mundo"

Vi a gota cair piedosa do ar,
cair pequenina sobre o chão sedento,
para depois ser rio turbulento,
indo morrer nas convulsões do mar.
Mas ficou tão saudosa a terra viúva,
ardendo em sede, suspirando em mágoa,
que o mar lhe devolveu a gota d’água,
feita de novo em lágrimas de chuvas.
Assim se impõe uma vontade ignota:
o rio rugidor nasce da gota,
para que nasça o mar dos seus caudais.
E do mar nascem nuvens inconstantes,
que caem de novo em gotas fecundantes,
em efêmeras gotas imortais.

Eu vi a flor vaidosa e a brisa amena
bebendo o orvalho da manhã serena,
num idílio sem gim de brisa e flor.
Mas soprou o tufão depois da aragem,
despetalando a rosa na passagem,
esmagando-a num sopro arrasador.
Porém, a terra, a mãe que nunca enjeita,
colhe no seio a triste flor desfeita,
e clama pelas águas da amplidão.
Assim renasce a flor, para que um dia
novamente a sacuda a ventania,
lançando suas pétalas no chão.
Alegria que nasce de um pavor!
Visão de paz que nasce de uma guerra!
Quando ventou, a flor desfez-se em terra!
Quando choveu, a terra fez-se em flor!

Vi homens junto a um berço de criança!
um murmurava debulhando um terço,
outro sorria cheio de esperança
- eram crianças que não tinham berço.
Vi homens diante de uma catacumba!
estava cada qual mais triste e absorto;
choravam todos em redor de um morto,
e eram mortos que não tinham tumba.
Quantas vezes nasceram e morreram,
Indo cegos do berço à sepultura!
Pois morreram assim como nasceram,
na mesma eterna incompreensão obscura!
Do mundo para o além se dissolveram,
cegos a tudo o que aproxima os dois.
Portanto, não viveram nem morreram,
porque jamais seus olhos perceberam
o mistério do Antes e Depois!

Sou gota e caio; sou torrente e corro.
Sou berço e tumulo; em mim nasço e morro.
Das minhas trevas surge meu clarão;
Do meu hoje, o amanha sereno e forte.
Ao nascer, ouço ecos de outra vida,
e ao morrer, gritos de uma nova geração.
Eu não conheço ausência nem degredo.
Se, um dia eu tiver medo, será medo
De mim mesmo, do enigma que sou.
E, se eu fugir de um pavor terrível,
Será de mim... Mas como? É impossível,
Porque sou tudo e em toda parte estou!
Eu sou o mundo!
Quando vier meu fim,
como nasci, eu morrerei em mim!



ABRALUZ - Associação Brasileira dos Amigos do Caminho da Luz

albinnoneves@caminhodaluz.org.br
Telefone: (32) 3741-3445 e 3741-5909
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