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atualizado em 22/06/09









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João Batista

O COMEÇO

Cinco anos depois de projetar quatro termelétricas, continuamente e sem férias; um casamento desfeito há dois e três filhos quase criados, resolvi que era hora de parar por um tempo e fazer alguma coisa diferente. Já conhecia o Caminho de Santiago de Campostela por inúmeras reportagens. Pensei até em fazê-lo, mas, meu agnosticismo quase convicto, sem nenhuma muleta da religião para ajudar, aliado à minha “virgindade” da 1ª vez, com certeza, tornariam aqueles 800 km monótonos demais. Foi então que vi uma reportagem na televisão falando sobre o “Caminho da Luz”. Um percurso de 195 km entre serras e montanhas, que começava na cidade mineira de Tombos e acabava no Pico da Bandeira. Parecia apropriado para o que eu queria. Entrei no site www.caminhodaluz.org.br e me informei sobre o mesmo; preparei minha mochila com todo o material necessário e rumei para Tombos numa quinta-feira.

TOMBOS

Cheguei ao Hotel Serpa, onde se fazia a inscrição mais ou menos as 18 h. Depois de algum tempo e após algumas palmas, apareceu alguém que soube depois ser o dono. Vestia-se despojadamente como um serviçal qualquer : bermuda, chinelos e camiseta. Depois dos procedimentos de praxe, quando paguei minha inscrição para a caminhada e ganhei uma camiseta, um livro e um cajado, fui apresentado ao meu quarto: simples e limpo, se parecia com uma pintura de Van Gogh.

Saí depois para lanches e conhecer a cidade; retornei as 22:30 horas. Estranhei as portas escancaradas e ninguém na portaria. As mesas na entrada cuidadosamente arrumadas; eram as mesmas onde era servido o café da manhã. Liguei a televisão mais por hábito e fiquei ali no sofá por um tempo. Com um pouco de apreensão pelo outro dia, ensaiei recolher-me. Encaminhei primeiro para as centenárias portas do hotel para fechá-las, porém, as sucessivas mãos de tinta que as conservaram até ali não permitiram - não se encaixavam mais. Pareciam que nunca tinham sido trancadas. Já eram 23h e o hotel era meu. Servi-me de água e com cuidado para não fazer barulho, recolhi-me. Levantei-me por duas vezes durante a noite e pude constatar que por toda a noite as portas permaneceram abertas. Qualquer transeunde mais abusado poderia entrar, servir-se do café sempre disponível e ir-se embora sem ser incomodado. Naquela cidade, violência era apenas uma palavra lida de vez em quando num jornal de fora.

Instalei-me num quarto de Van Gogh, deitei um apreensivo João, sonhei-me um bravo D. Quixote e acordei Indiana Jones.

Conversei de manhãzinha, antes de partir, com a filha do dono e contei-lhe sobre meu receio e o meu azar de ter que fazer todo aquele percurso sozinho e talvez perder-me no caminho - de onde eu vim, caminhar sozinho, solidão, era descuido - perigo. Ela tranqüilizou-me, dizendo que durante aqueles cinco anos da existência da caminhada, nunca havia acontecido nenhuma violência, e que aquele caminho já tinha sido percorrido até por mulheres sozinhas. Somente me alertou que prestasse atenção num trecho onde havia um bouganville, Já tinha havido um caso de distração onde o caminhante se perdeu; voltou ao hotel indignado e desistiu de continuar- com certeza ele ainda não estava pronto para Caminho. Tiramos uma fotografia minha em frente ao hotel, depois deles dois juntos, nos despedimos e parti rumo á próxima parada: Catuné, a 29,5 km. Eram 8 horas quando deixei a cidade para trás. Comecei ali uma inédita jornada que duraria por toda uma semana.

Depois de caminhar perto de 1 hora, vencendo os obstáculos naturais de uma estrada de terra castigada por uma chuva de dois dias antes, mas que não lhe tirara a beleza, e após passar por uma encruzilhada, parei maravilhado para observar um grupo de borboletas fazendo um bailado sobre um monte de lama. Fiquei ali por um tempo e quando levantei os olhos deparei com a armadilha: estava errando também caminho. Descobri a seta amarela presa numa árvore indicando a rota certa, olhei para trás e lá estava o bouganville. Retomei o caminho pela rota certa, sem antes conjecturar que talvez estivesse aprendendo ali minha primeira lição:

“ ...se você se dispuser de um minuto para contemplar a beleza, ela te salvará...”

De vez em quando, olhava para trás e observava minhas pegadas impressas na lama e me recordava daquelas primeiras, deixadas pelo homem na lua. As minhas tinham aquela mesma equivalência. Em diversos trechos da estrada, desfigurada pelas rodas das carroças sobre a lama, o que a invenção do homem deformava, as borboletas se juntavam para enfeitar. Meu cantil, tive que amarrá-lo com a boca para baixo na parte de trás da mochila para melhor firmá-lo. De vez em quando, sentia pingar no meu calcanhar a água que ele deixava escapar com o movimento. Gostava de pensar que aquelas gotas representavam minhas vaidades que se iam ficando pelo caminho - já estava pensando como um peregrino. Tinha levado para ler nas paradas inevitáveis do Caminho “Os Vagabundos Iluminados” de Jack Kerouac e sua narrativa rascante. abandonei-o antes da quarta parte: tinha encontrado coisa mais interessante para fazer.

Durante todo esse 1° percurso, as paisagens se sucediam cada uma, mais deslumbrante que a outra, e tentava registrá-las com minha limitada máquina fotográfica. Lembrei-me, daquele fotógrafo do filme “As Pontes de Madison” contemplando aquelas imensas planícies: “..Algumas coisas, coisas inteiras, não podem ser vistas por partes, se você as olhar por partes elas desaparecem...”.

A simplicidade e a bondade daquela gente, que ia encontrando pelo caminho, ficava evidente, quando pedia alguma informação ou água, e já não achava mais estranho ser chamado de peregrino. O descaso com que recebi o cajado no hotel por achá-lo mais simbólico do que necessário, se transformou, quando fui descobrindo toda a sua utilidade: em alguns pontos, era quase impossível prosseguir com os tênis secos sem o seu auxílio.

Horas depois caminhando, parei na famosa Gruta Santa para fotografá-la. Procurei pelo meu cantil e descobri que ele se soltara e se perdera no caminho. Tinham-se ido também todas as minhas vaidades?

Mais à frente, já bastante cansado pelo ineditismo da experiência e sem saber o quanto ainda faltava, parei onde parecia haver alguém para pedir informações.
Um velho com vitiligo nos pernas e trazendo nas costas um saco desproporcional ao seu tamanho, interrompeu seu trajeto ao ver-me, colocou o saco no chão e dirigiu-se com alguma pressa para o fundo duma construção. Voltou logo em seguida trazendo nas mãos um cajado. Antes que eu lhe perguntasse alguma coisa deu-mo de presente, dizendo que o fizera para o 1° peregrino que aparecesse. Ensaiei perguntar-lhe quanto custava, mas calei por achar que aquela pergunta o insultaria. O dele era um pouco mais pesado que o meu que era de bambu .Tinha uma cordinha passada por um furo na sua extremidade mais fina.Havia ali um trabalho de execução. Agradeci e continuei, agora com os dois cajados - Aquela era o tipo de pessoa que se encontra pelo Caminho.

ENTRADA EM CATUNÉ

Cheguei em Catuné bastante cansado, e, depois de me apresentar a Dna. Eva, dona da pensão que me acomodaria naquela noite; e tirar os sapatos e as duas meias já sentado na cama do meu quarto, conferi no livro: tinha andado incríveis 29,5 km! Minhas pernas juravam que eram 100, mas para meu espírito apenas uma corridinha!

Dona Eva, não era a princípio a que me receberia. Mas naquela cidade, várias casas se revezavam para acolher os peregrinos. Como eu estava só, ela fora a escolhida para receber-me. Era a maneira que elas tinham de mutuamente se ajudarem a aumentar suas parcas rendas.

Depois do melhor banho do mundo - a melhor comida mineira! Enquanto mastigava, Dna Eva ficava em pé me olhando de soslaio, como para ver se eu aprovava sua comida. Só descobri que ela não morava sozinha com a sua filha, já á noite, quando chegou seu marido da roça. Olhou-me por um tempo com um comedido contentamento: a condição de peregrino me habilitava de estar ali com eles, sem desconfiança.

Sentamos à noite todos juntos, como uma família comum para ver televisão . Dna Eva no sofá à esquerda, um pouco a frente. As alternâncias da luz da televisão refletidas no seu rosto, mostravam-no quase por completo. Dentes perfeitos numa mulher ainda bela, completamente despojada de vaidades. Pensei o que faria um maquiador hábil num rosto daqueles! Disfarcei quando vi o olhar do Seu Romão grudado no meu.

Seu Romão falava baixo e aos goles. Contou-me um pouco da sua difícil vida; da sua pressão alta que o obrigou a aposentar-se como garantia. De como se lamentara por não ter tido mais filhos que o ajudassem na lavoura. Disse que sempre trabalhara para os outros e que nunca tinha tirado férias na vida (e eu estafado por apenas cinco!...). Seu último patrão, por quem ainda nutria grande admiração, tinha-lhe indenizado com 1500 reais depois de 20 anos de trabalho. Lembrei-me da minha irmã, quando me disse há alguns anos que “... todo rico deveria ter vergonha da sua riqueza” - Seu Romão reforçou minha crença nisso!
De manhã, quando acordei, deparei-me com os dois cajados juntos, encostados na parede. Não tive dúvidas com o qual continuar a viagem. Contei a história deles para o Sr. Romão durante o café, e ele me disse conhecer o velho; chamava-se Jonas e era um bom homem. Antes de partir escrevi à caneta no cajado, junto à cordinha, seu nome para não me esquecer.

Parti cedo, logo após Seu Romão. O cansaço do dia anterior tinha me privado de fotografar a cidade. Pensava em fazê-lo no caminho, enquadrando-a toda. Parei num trecho que achava mais apropriado. A silhueta de um menino franzino vindo ao longe, me chamou a atenção pela roupa. Fotografei a cidade de cima e quando o procurei novamente, ele já ia sumindo numa curva mais adiante dentro do que parecia um pijama, Já eram quase nove horas e dei-me conta de que precisava apertar o passo. Pedra Dourada, minha próxima parada, ficava a 28,2 km - era o que dizia o livro.

Paisagens, fotografias, calor e cansaço, se repetiram como no 1° trecho; agora com os pés mais acostumados ás entorses, buracos e depressões da estrada. Já não precisava pedir mais água, pela abundância de fontes do caminho. Onde era mais difícil o acesso á fonte devido a altura, amarrava uma garrafinha na cordinha da extremidade do cajado e a enchia. Descobria ali, mais uma sua utilidade.

Prossegui livre e feliz como há muito não me sentia, descobrindo coisas novas e de como eu era privilegiado por estar podendo fazer aquilo. As bolhas nos pés que já se anunciavam seriam apenas as marcas de que aquilo estava acontecendo realmente. Nas horas livres, registrava tudo aquilo como um explorador deslumbrado com a descoberta. Tinha tempo e o ócio não mais me causava ansiedade como antes. Estava brincando de escrever um diário e gostando daquilo.

PEDRA DOURADA

Pedra Dourada era uma bela cidade vista de cima e com uma bela igreja. Antes de acessá-la, há uns quinhentos metros, uma inscrição já quase apagada pelo tempo na fachada de uma casa, chamou-me a atenção, estava lá: “Nada será colocado dentro do pensamento, fora daquilo que já está posto -Coríntius - C3-V11".

Fiquei conjecturando, enquanto caminhava, que algumas frases, por terem atravessado séculos imutáveis, traziam em si uma sacralidade que tornavam suas sentenças inquestionáveis. Em princípio, ela ia de encontro a tudo aquilo que experimentara até aqui. Era impossível negar que o conhecimento humano era “colocado” gradativamente em seu pensamento proporcionalmente à sua curiosidade, ou na velocidade da sua necessidade de adaptar-se, para sobreviver ao mundo em constante mutação. Lembrei-me do bom ateu José Saramago, que talvez só fosse ateu porque lhe foi permitido “lá de cima” sê-lo. Talvez ele, com sua sabedoria e iconoclastia respeitosa, pudesse destroçá-la. Depois pensei num diamante, que só mostrava toda a sua rutilância e beleza, depois de tocado pela mão do imperfeito homem e seu conhecimento cumulativo.

Recordei-me também de Miquelângelo, que dizia que a imagem estava lá dentro do mármore “ele apenas a colocava para fora”. Nas duas suposições meu agnosticismo contrafeito perdia para sua verdade inquestionável: a beleza já estava lá dentro, posta, assim como dentro do mármore já existia a forma.Um Leonardo Boff, com sua religiosidade convincentemente contida, e sua profunda compreensão do universo sorria satisfeito dentro de mim. Não sei no que resultaria, num embate entre os dois se isso fosse possível, em mim, ficava somente a alegria de constatar que há muito tempo não tinha tempo de pensar sobre aquilo.

Cheguei à pensão onde ficaria, mais ou menos às 15:30 horas. Estava andando já há quase oito. Dna Ana, a dona, me recebeu com alguma surpresa por ter sido o único peregrino a chegar naquele feriado e já foi me dizendo que apesar da pensão estar cheia por outras pessoas, eu já era seu hóspede preferido. Era baixinha, atarracada, de pernas arqueadas e olhos brilhantes. Aparentemente, algum defeito nos quadris a fazia balançar de um lado para o outro quando andava. Quase sempre na cozinha, ela quase não parava em volta daquele enorme fogão que comandava com maestria. Talvez percorresse por semana em volta dêle a mesma distância que percorria nos meus trechos, e não reclamava - frango, quiabo e macarrão - era a delícia do dia!

A pensão estava cheia porque haveria uma festa na cidade naquela noite - essas festas promovidas por políticos à cata de votos - churrasco e bebida de graça. De tardinha, uma surpreendente Dna Ana cruzou por mim com um vestido de festa e cabelos molhados .Na pensão, uma agitação só: um entra e sai de pessoas para comer ou para urinar. Resolvi sair porque era impossível ficar tranqüilo, mesmo dentro do meu quarto. Aquela festa iria atravessar noite adentro e eu precisava descansar para o outro dia.

Os políticos chegaram mais ou menos às 22 h, e com é comum entre eles, com seus cabelos tingidos, outros gomalinados, dentro de suas camisas de seda - o terno “os afastava do povo”. Abraçaram um deficiente a eles dirigido, um por um, com a intimidade de velhos conhecidos, sem antes levantarem os olhos para ver se estavam sendo convenientemente fotografados. Tudo parecia ensaiado: a presença do deficiente inocente e o riso acolhedor dêles. O que parecia ser o prefeito era o mais novo do grupo e ficava mais no fundo do palanque, parecendo tímido, como que ainda despreparado para estar ali - provavelmente fora colocado com voto cabresto e dentaduras, como é comum no interior. Em volta, um bando de desdentados se fartavam no churrasco gratuito - investimento com retorno garantido! De vez em quando, a cena grotesca de alguém levantando a dentadura para desgrudar alguma coisa já não era mais engraçada. Tomei dois runs para ajudar-me a dormir - mais para agüentar aquilo!

Voltei para a pensão mais ou menos à meia noite e deparei com Dna Ana já fora do seu vestido de festa preparando comida para 7 soldados - anjos da guarda com revólveres daquelas consciências egoístas e indiferentes. Durante a noite, o sono era refém inconformado daquele auto-falante. Entre um discurso e outro o locutor repetia “...esses são honestos; nesses vocês podem confiar!!”. Durante todo o tempo que fiquei acordado, não me lembro de ter ouvido o discurso do prefeito.

Dormíramos muito mal naquela noite por conta da festa. Despedi-me de Dna Ana no outro dia, depois do café, mas antes, pedi que me deixasse fotografar-lhe em frente a pensão. Ela saiu comigo meio indiferente como se tentasse lembrar de alguma coisa; posou com o mesmo olhar de hesitação e eu cliquei. Fitou-me depois com um semblante mais sério; eu apressado para partir e ela me chamando de volta: precisava rezar-me o salmo - obedeci. Na sala, depois de apanhar uma bíblia já gasta, num gesto habitual, leu-o um pouco comovida e com os olhos fixos em algum lugar do chão, entoou um canto como uma carpideira o que parecia ser parte de um hino religioso. Depois, com um gesto onde parecia benzer-me encerrou aquele pequeno ritual, e nos despedimos com um abraço.

FARIA LEMOS

Deixei a cidade às 7:45h rumo à Faria Lemos. As bolhas estouradas nos pés da noite anterior fizeram-me optar por uma sandália comum. Tinha pela frente mais 25 km a serem percorridos. Estava cansado por ter dormido pouco. Num trecho com uma longa subida, um carroceiro vindo atrás de mim, vendo meu arrastar manco, parou um pouco atrás e me ofereceu carona - quase cedi. Desisti depois de fitar os olhos tristes do cavalo: mais setenta quilos na sua carroça tornaria aquele olhar muito mais triste; além do mais não valeria a pena - subi quase na velocidade da carroça.

Já era abundante na estrada a grande variedade dos cristais de todos os matizes que saiam do chão e dos barrancos com seu brilho e pipocavam na retina. Peguei alguns dos menores e os coloquei na mochila.

Depois de fazendas, cachoeiras, riachos, fontes, vales e montanhas de um panorama já repetido, embelezado agora pelo brilho dos cristais, cheguei ao trevo da entrada de Faria Lemos mais ou menos às 15h. A placa dizia que faltavam apenas 3 km. Tinha sido até ali, uma das etapas mais fáceis das que eu já tinha percorrido. Saí do chão de terra para um asfalto quase perfeito (era os únicos 3 km asfaltados em todo o Caminho). Aqueles 3 km porém, pareceram se transformar em 10 pela mesmice da caminhada. Ao longo do asfalto, placas com a inscrição de cada um dos 10 mandamentos de maneira decrescente, se sucediam a cada 300 metros. Não via a hora de chegar logo o “Não cobiçar as coisas alheias” para cair na cama. Foi o pedaço mais “civilizado” e o mais chato que percorri. Já à noite no hotel, descobri que não tinha feito uma boa escolha por optar pelas sandálias. Suas tiras tinham marcado fundo meu calcanhar deixando um sulco preto e muito dolorido. De manhãzinha, as pernas doíam tanto e estavam tão rígidas que parecia que seria impossível prosseguir. Depois de um alongamento, massagem e desjejum rumei para Carangola distante a 29,9 km.

CARANGOLA

Alguma coisa já parecia ter mudado em mim. No começo da caminhada, lembro que golpeava com meu cajado, com alguma “fúria”, os galhos que atravessavam pelo caminho; agora, para não quebrá-los, apenas os afastava suavemente. Abria as várias porteiras e não mais as deixava bater na volta - encostava-as com cuidado. Olhava mais atentamente para o chão para não pisar nas formigas. Em um ponto do caminho, uma cobra jazia parecendo ainda viva, com toda a cabeça enfiada num sulco da terra como num último gesto para escapar de alguma pata ou roda que a golpeara. Suas lindíssimas cores, fizeram-me, num primeiro gesto, empunhar minha câmera para fotografá-la. Recuei logo depois: Já não era cômodo fotografar a morte.

Só ainda me incomodava, não ter conseguido me livrar de pensar no tempo. Essa preocupação me impediu por várias vezes, de atrasar-me em um banho de cachoeira desejado e ainda não realizado, mesmo quando o calor parecia insuportável.

Os cristais, cada vez mais belos, enchiam o caminho com suas luzes (deve vir daí o nome do caminho) e iam sendo substituídos, pela beleza, na minha mochila. Tentei captar por várias vezes toda aquela explosão de cores com minha máquina, mas, provavelmente não conseguiria com aquela fidelidade - faltava sol nela.

Pelas bolhas nos pés, aquele foi um trecho difícil de percorrer. Cheguei ao hotel depois de quase atravessar todo o asfalto da cidade até ele. Perguntei na portaria se o Albino, o inventor daquele caminho, morava por perto. Sabia que ele morava em Carangola, mas me disseram que o sítio onde morava ficava longe. Desisti de vê-lo devido ao meu cansaço e me recolhi. Saí depois para jantar depois de um bom banho e só voltei para o hotel às 21:30h, depois de um feijão tropeiro maravilhoso e um papo agradável com Maria Alzira, a dona do restaurante “Jurand’ais”, falamos sobre dança, música e sobre filhos que se vão com direito a todos os “esses” e todos os “uais” dos mineiros . A recepcionista avisou-me que o Albino, voltava de uma viagem a BH e passara por lá. Lamentei o desencontro, pois era minha intenção estar com ele para conversarmos.

Recolhi-me, e meia hora depois, para minha surpresa, lá estava ele na recepção à minha procura. Era um homem alto, já entrado nos cinqüenta . Curvou-se para me cumprimentar e aquela enorme mão envolveu totalmente a minha - um homem daquele tamanho poderia quase tudo. Tinha um rosto anguloso e a vermelhidão dos acostumados ao sol; mas, o que mais destacava no seu semblante ao longe, era um fino rabo de cavalo de um cabelo ainda preto, que amarrado a cada palmo, escorria como uma cobra até a linha da cintura. Dez minutos de papo e nossa empatia já era total. Meia hora depois já estava entrando com ele, na sua casa. Ofereceu-se para ajudar-me a descarregar minha máquina fotográfica e a fornecer-me outras fotografias do Caminho.
Albino era uma daquelas pessoas, que dá vontade de sentar numa tarde, sem compromissos e com cervejas, para escutar-lhe as histórias. Já tinha andado por várias partes do mundo sempre em caminhadas. Já tinha sido casado, mas atualmente estava só. Sua casa se parecia muito com ele - rústica e agradável. Pelos cantos da sala e pela parede, vários objetos e fotos, identificavam suas rotas passadas quando então adentramos no que parecia ser seu escritório.

Dezenas de diplomas, fotos e certificados, enquadrados e simetricamente organizados, pendiam da enorme parede e pareciam testemunhar toda a importância dele para aquela cidade. Enquanto caçava imagens no computador, fiquei observando suas enormes pernas - com elas, devia ser fácil para ele fazer todas aquelas caminhadas. Tiramos umas fotografias, mostrou-me uma pena que provavelmente seria do “grande pássaro” - uma lenda da região e nunca fotografado. Tirou depois do armário uma estranha caixinha, com um furo no meio e tiras de aço de diferentes comprimentos fixas a ela, sentou-se na escada e com ar solene, no que disse ser em minha homenagem, arrancou dela uma estranha música, alguma coisa parecida com a dos flautistas chilenos e bolivianos do Largo da Carioca. Disse o nome do instrumento e que ele mesmo o fizera. Levou-me depois até o hotel, recomendando-me que prestasse bastante atenção, pois o trecho que faria no dia seguinte era o mais longo, porém um dos mais belos. Já era quase uma hora quando me recolhi.

Deixei Carangola para trás com a alegre impressão de que ainda o veria. O relógio marcava 7:45 h.

ESPERA FELIZ

Havia duas alternativas para se chegar a Espera Feliz. Por recomendação do Albino por achá-lo mais belo, decidi pelo lado mais longo passando por Ernestina - aproximadamente 33 km. Realmente, as paisagens que se descortinavam, uma a uma eram desconcertantemente belas. Fontes de águas abundantes respingavam, caindo das pedras e se sucediam por todo o caminho. Era impossível manter os pés secos no meio daquela grama abundante e úmida. Viajei por uma infância já esquecida, colhendo mexericas nos pés sem dono e chupando canas descascadas nos dentes, como fazia quando criança. Descobri no alto, onde parecia impossível passar um carro, uma velha estação de trem desativada. Sim, ali já tinha existido há um tempo não muito distante, vidas que passavam em busca de sonhos e encontros; com certeza incontáveis lenços e despedidas.

Atravessei por Caiana e cheguei à Espera Feliz debaixo de chuva, bastante alquebrado. Para mim, naquele estado, "Encontro Feliz " seria o nome mais adequado para aquela cidade.

CAPARAÓ/ ALTO CAPARAÓ

Este trecho, talvez devido á proximidade ao grande alvo e lugar turístico - Pico da Bandeira; já trazia em si algumas interferências negativas da civilização para o que eu desejava. O caminho, pela primeira vez, era o mesmo onde circulava os ônibus interligando as duas cidades, e não era raro ter que me afastar para que eles passassem. Continuavam lá porém o mesmo espetáculo dos cristais e malacachetas que se projetavam dos barrancos como cascatas de luz. Era comum em grandes trechos, um córrego fino de águas confiáveis, seguir junto, discretamente à margem do caminho, como para nutrir e dar confiança ao peregrino. Alguns montículos de terra formados ao acaso pela chuva, carregavam em si tanta beleza na sua forma e brilho, que pareciam sido feitos, cuidadosamente, pelas mãos de uma confeiteira encantada. A explosão de brilho que vinha do chão de terra era impossível de ser registrada com toda sua intensidade por uma câmera qualquer - grudavam na retina por um tempo e se eternizavam na lembrança. Mesmo a pousada onde eu fiquei à noite - a única indicada - já não tinha o calor e a cumplicidade das outras passadas; nem mesmo cheguei a conhecer sua proprietária. Comi entretanto, à noite, um dos melhores feijões de todo o caminho: Fogão de Lenha - era o nome do pequeno restaurante próximo à pousada - e Dna Regina era a responsável por aquilo. A mulher mineira - sempre a mulher mineira - e sempre à frente de quase tudo. Em todos os lugares que precisei e recebi ajuda, lá estavam elas, com sua extrema limpeza, dedicação e dignidade; os maridos só chegavam depois - pareciam sempre meros figurantes.

Carimbei meu último espaço do roteiro e peguei meu certificado de Caminhante da Luz na pousada Serra Azul, no Alto Caparaó. Descansei por um dia para o grande final: Pico da Bandeira.

PICO DA BANDEIRA

Tinha feito todo o percurso sozinho até então, e soube, com satisfação, que chegaria um casal de caminhantes à noite na pousada onde estava: ter descansado por um dia me possibilitou aquele encontro.

Jonh “spike” e Augusta, era como se chamavam. Ele, Um ex-militar da África do Sul, 4 anos de Brasil; Ela, brasileira, médica, moradora no Rio de janeiro e ex-caminhante de Santiago de campostela. Como eu, era a 1ª vez que faziam aquele percurso. Ela, porém, era a 3ª vez que subia ao Pico.

Combinamos, sair cedo no outro dia e às 7: 30h de um domingo já estávamos na Tronqueira, onde propriamente se inicia a subida a pé. Dali ao Pico são 9 km de subida íngreme entre pedras e fendas. Existe um serviço de aluguel de mulas, que transportam mochilas e barracas até o Terreirão, um local com infra-estrutura, como churrasqueiras, banheiros e até abrigos para quem quiser pagar. Num final de semana é quase impossível fazer aquele percurso sozinho, pois tem sempre uma profusão de pessoas subindo; jovens estudantes na sua maioria, que transformam o Terreirão num grande e alegre acampamento comunitário. O mês de julho é o preferido pela maioria das pessoas pela melhor visibilidade e quando se atinge temperatura de até -4º C .

Subir acompanhado, conversando e ir sabendo um pouco daquelas vidas, tornavam a dificuldade do caminho menos sentida. Jonh, com sua enorme mochila, apesar de quase chegando aos sessenta, rompia sem titubear os obstáculos da subida com admirável intimidade - suas pernas de soldado não tinham se esquecido.

Durante quase todo aquele percurso, fui recebendo aulas sobre o Apartheid daquele homem branco que presenciara e vivera toda aquela época; de como teve a sorte e a felicidade de receber a educação certa para discordar sempre daquele desumano regime; da sua admiração por Mandela e sua consciência tranqüila. Enfim, do seu grande encontro da vida que o trouxe definitivamente para o Brasil.

FINAL

Finalmente chegara. Tinha andado incríveis 195 km entre serras e montanhas. Estava feliz por ter chegado e orgulhoso das minhas pernas. Em alguns trechos pensei em desistir pelo cansaço. Em algumas ocasiões, ainda no início da caminhada, tive pensamentos maus, como quando pedi pela primeira vez água, e imaginei que alguém pudesse pôr sonífero nela e somente seguir-me depois para roubar-me, com a certeza de que estava só. Ou alguém, invertido o sentido das setas só por brincadeira. Em outras vezes, senti-me envergonhado, como quando conversando com o Albino, disse-lhe que não tinha resistido a beleza de algumas pedras e tinha trazido algumas comigo -estava roubando a natureza e desfigurando aquele Caminho.

Fui muitas pessoas nesse trajeto. Comecei um intrépido Indiana Jones; depois fui descobrindo a natureza pelas lentes da máquina como um sensível fotógrafo da National Geografhic; caminhei solitário e refleti como um Ghandi; me servi da natureza com a ingenuidade e a pureza de um Derzu Uzala e cheguei com um pouco com a sabedoria de um Oscar Wilde com cara de Dorian Grey. Não tinha encontrado aves ou animais majestosos nessa jornada, como faisões selvagens ou onças pintadas; mas também não tinha visto nossos habituais pombos e pardais. Não tinha encontrado Deus, nem tive a sorte de ter meu ombro tocado pela mão divina do meu “Anjo da Guarda”, como certa vez disse numa entrevista, um nosso escritor de caminhadas, agora famoso. E nem sei se naquele final tinha encontrado a mim e estava transformado. Talvez não fosse ainda o final ou então eu não precisasse tanto ser transformado. Apenas tinha vivido uma experiência maravilhosa e única, e estava feliz por isso. Sei que muitas pessoas podem ter suas vidas completamente modificadas depois dessa caminhada. Uns poucos crentes, e é preciso que sejam, encontram o “Grande Pai” pelo Caminho; alguns, encontram a si mesmos e isso lhes bastam. A verdade é que não se volta o mesmo de antes e nunca menor dessa jornada. As dores das bolhas nos pés, aliviadas quando se tira o sapato; o cansaço recompensado pelo colchão sempre macio da próxima cama; a melhor comida saindo daqueles fogões simples de lenha com aqueles feijões maravilhosos, imaginados de dentro da fome da espera. E os banhos depois do corpo fustigado, como falar deles?! Essas lembranças são inapagáveis. São elas que ficam e são nelas que refugiamos quando nos foge a beleza ou a calma. A saúde que temos e as coisas simples, que fazemos todos os dias sem notar, como comer, dormir ou banhar-se, passam a ser mais valorizadas. Como a doçura; a reverência e o amor das pessoas simples que encontramos e convivemos por esse tempo nos marcam para sempre, e nos trazem a compreensão da grandeza e a importância da solidariedade, e a responsabilidade de nos vermos e nos tratarmos mutuamente e sem diferença , como irmãos.

João Batista
jombasouza@uol.com.br



ABRALUZ - Associação Brasileira dos Amigos do Caminho da Luz

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